Tarso Genro: “Vamos fazer jus à personalidade política dos gaúchos”

do jornal Sul 21

O candidato Tarso Genro acredita que o PT amadureceu com o governo Lula, um governo de coalizão que ele ajudou a formar. Aposta que houve, também, uma mudança na visão da população em relação aos partidos de esquerda. Por isso, durante a campanha, afirma que o PT não adotará uma posição que define como “agressiva-defensiva”, mas propositiva, comparando o que foi feito nos governos dos demais candidatos com a atuação de seu partido, no âmbito municipal, estadual e federal. Não fugiu de temas polêmicos, como o refúgio político a Cesare Battisti; a possibilidade de duplo palanque, no Estado, da candidata petista à presidência, Dilma Rousseff; e o apoio de partidos que já foram adversários do PT. (Texto de Rachel Duarte e fotos de Eduardo Seidl)

O senhor já foi candidato a governador em eleições anteriores.  O que mudou, em relação ao pleito atual?

Sou candidato pela terceira vez. Todos nós, do PT, sempre tivemos um rosário de candidaturas, até a afirmação do PT como um partido com capacidade de disputa. Na primeira vez, em 1990, concorri na verdade para construir o partido. Em 2002, concorri numa tentativa de ganhar e fomos derrotados no segundo turno. Hoje o contexto político e econômico do Brasil é completamente diferente. Temos um governo nacional de coalizão, que mudou o imaginário da população em relação ao Partido dos Trabalhadores.  E, sobretudo, mudou a visão que o povo tem sobre uma proposta de esquerda conseqüente, para enfrentar os impasses do desenvolvimento nacional e os impasses da globalização, que se encontra em uma profunda crise.

No campo da estratégia de campanha, anteriormente havia uma definição de ataque aos adversários políticos. Hoje o PT repetirá esta forma de debate?

Na verdade, nas outras oportunidades foram ataques defensivos. Nós éramos vistos, o PT e os partidos de esquerda, como uma espécie de “patinhos-feios” da abertura democrática. E nós éramos sempre colocados pela grande imprensa como um partido sem alternativas e sem capacidade de governar. Então a nossa posição era uma posição defensivo-agressiva. Hoje, com essa mudança que houve no país, e com as sucessivas administrações que o PT teve nas cidades, nos estados e, sobretudo no governo Lula – do qual eu participei mais de sete anos – isso mudou. Hoje somos um partido de proposição e de afirmação das mudanças. Somos, portanto um partido que disputa em termos programáticos e não mais meramente nos defendendo do cerco político que a esquerda sempre foi submetida no país, inclusive depois da Constituição de 1988.

O senhor, como a governadora Yeda Crusius e o ex-prefeito José Fogaça, tem experiência política local e nacional. O senhor se considera mais qualificado para uma gestão com boa relação federativa?

Penso que os três candidatos são pessoas experientes e têm uma trajetória política conhecida perante a opinião pública. O que deve ser avaliado é qual a proposta que estes candidatos representam e o que fizeram enquanto estavam no governo. Que objetivos eles atingiram? Como eles se comportaram diante das responsabilidades com o Estado? O nosso debate será esse. Nós vamos apresentar um programa de futuro e mostrar o que nós fizemos enquanto estávamos no governo. Sem desrespeitar os adversários, sem desqualificá-los, mas não sonegando o debate político-ideológico.

Na prática, como será?

Vou dar alguns exemplos. O José Fogaça (PMDB) integra um partido que está no governo de Yeda Crusius (PSDB). Qual a diferença entre os dois? Esta é uma questão política que tem que ser explicitada. Segundo, a trajetória de Fogaça como prefeito apresentou resultados. Vamos comparar estes resultados com os do governo do PT na Prefeitura de Porto Alegre. Em terceiro lugar, tanto Fogaça como Yeda, com todo o respeito que eu tenho por eles, sempre aceitaram essa chantagem ideológica do “caminho único” aqui no Brasil. Ou seja, de que só tinha uma saída, a de ficar de joelhos para o FMI e para a lógica da especulação do capital financeiro, e governar segundo a sua visão. Tanto que eles estavam vinculados ao governo do Fernando Henrique Cardoso, que levou o país à beira do abismo. O presidente Lula mostrou que é possível mudar e crescer com distribuição de renda. E nós estivemos junto com o presidente Lula nessa caminhada. Então são diferenças políticas e programáticas, não ofensas ou ataques pessoais. É isto que vai nos separar e nos identificar na disputa para o governo do Estado.

Como o senhor prevê utilizar a novidade da Internet na sua campanha? E uma curiosidade, é o senhor mesmo que escreve no seu twitter?

Eu já aprendi a mexer. Às vezes faço e às vezes dito para o meu assessor. Mas a frase sempre é minha, isso é indelegável. Esses meios de comunicação são uma novidade, são positivos, democratizam a informação e atingem uma certa faixa da sociedade, que não se interessa por política, muitas vezes. Mas são insuficientes para fazer uma campanha eleitoral. Não há nada que substitua o debate na cena pública. Seja de maneira presencial, seja na televisão ou nas mensagens em programas de rádio. Porque é isso que, em última análise, atinge as grandes massas. Então, na verdade nós temos que aprender a combinar esses meios eletrônicos novos com a velha campanha eleitoral. Eu sempre fui muito seduzido pelo contato direto com o eleitor, como nós estamos fazendo agora para compor o nosso programa. Ouvir muito as pessoas do povo, que não integram partidos, é o que dá mais vigor a uma campanha eleitoral. Pois as pessoas, quando se reportam a ti, se reportam de maneira não subordinada a um partido político. Estas são as pessoas que trarão mais subsídios para o debate. São as pessoas do povo, normalmente da parte de baixo da pirâmide social, e que não estão ideologizadas.

No âmbito da segurança pública, o senhor desenvolveu um projeto que está mudando o paradigma nacional. A fórmula que une inteligência policial com projetos sociais será utilizada no seu governo?

O estado que aplicou o Pronasci [Programa Nacional de Segurança com Cidadania] da maneira mais plena foi o Rio de Janeiro, até porque lá as questões são mais graves. E as UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora], que seguem o modelo do policiamento comunitário do Pronasci, estão tendo amplo sucesso. Já foram capa inclusive da revista The Economist, apontando uma mudança estrutural na segurança pública do país. Aqui no Rio Grande nós vamos aplicar integralmente o Pronasci. Eu posso dar centenas de exemplo, mas vou dar só um, que é o mais gritante. O Estado poderia ter criado uma estrutura institucional para permitir que os policiais gaúchos tivessem acesso ao plano nacional de habitação para o policial de baixa renda. Mas o Estado não fez isso. Esse programa é um esforço direto do Ministério da Justiça com a Caixa Econômica Federal e hoje já permitiu, no Brasil, que 17 mil policiais tenham seus imóveis. Ainda na área de segurança pública, pretendo dar um apoio fortíssimo aos Gabinetes de Gestão Integrada de Segurança Pública, com aparelhamento tecnológico, incluindo a Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal nestes gabinetes. A primeira coisa que vou fazer, caso for eleito governador, vai ser um convênio com a Polícia Federal e a Rodoviária Federal para integrá-las plenamente às ações contra corrupção e também naqueles crimes que são da sua competência, como o tráfico de drogas, contrabando e controle das fronteiras.

A Polícia Federal fez um trabalho exitoso na esfera nacional no combate à corrupção, enquanto o senhor foi ministro. O senhor irá utilizar as denúncias contra os seus principais adversários aqui no Estado no debate eleitoral?

É preciso esperar a finalização dos processos, dos inquéritos e o juízo definitivo do poder judiciário sobre o assunto. Qualquer manifestação precoce sobre este assunto, no âmbito de denúncias de corrupção, pode se tornar uma grande injustiça. Então este não será o tema que vou usar no debate. De minha parte, será o tema do combate à corrupção, independentemente de quem esteja envolvido nela, de qual partido for. Não acho que a utilização destes fatos, que presumidamente são fatos delituosos, que envolvem direta ou indiretamente pessoas do Estado, tenham um potencial cívico para melhorar a situação local e do País. O que foi feito pela grande mídia contra o presidente Lula, durante dois anos do seu governo, deve servir de lição para nós. Não devemos utilizar estes temas de maneira irresponsável, acho que este não é um assunto adequado para o desenvolvimento político do país e não pretendo utilizá-lo. Vou dizer, sim, como vou combater a corrupção aqui no Estado, que é como eu fiz no país. Nada mais do que isso.

Houve bastante polêmica na época que o senhor se posicionou no caso do italiano ex-ativista Cesare Battisti. O senhor acredita ter acertado, ao contrariar o parecer do Comitê Nacional de Refugiados e concluir que, por ter cometido crime político, Battisti tinha direito de permanecer no Brasil?

Essa é uma questão que foi ideologizada de má fé pela grande mídia. Então é natural que as pessoas fiquem confusas sobre o assunto. Eu só agi de acordo com os tratados internacionais sobre refugiados e direitos humanos. Isso foi escondido pela maioria da mídia. Inclusive as minhas decisões relacionadas ao caso Battisti foram fundamentadas em decisões anteriores do Supremo Tribunal Federal sobre o mesmo assunto. O STF já não havia permitido a extradição de quatro ex-brigadistas italianos que tinham se refugiado no Brasil. Não foi dado o devido peso, na divulgação do caso Battisti, a estas decisões anteriores do Supremo. Fui criticado como se tivesse tomado uma decisão inédita, e isso constitui uma fraude informativa. Inédita foi, na verdade, a mudança de decisão do Supremo sobre o tema. Mas o STF manteve, afinal, uma posição de princípio, que é remeter ao presidente da República a solução do caso. Seria muito grave se isso mudasse. E isso foi mantido por cinco votos a quatro. Está nas mãos do presidente a decisão do Battisti. E acho que conseguimos sensibilizar uma parte da imprensa, que também divulgou os nossos pontos de vista. Houve inclusive uma coisa inédita: pela primeira vez, quando um ministro da Justiça sai do governo, houve um manifesto de juristas apontando a sua gestão como uma gestão exemplar. O fato nunca tinha ocorrido. Então eu me sinto satisfeito em relação a isso.

A imprensa teve comportamento diferente em relação ao caso Battisti e sobre a rediscussão da punição aos torturadores. Recentemente o STF manteve a Lei de Anistia no Brasil. Qual a sua opinião sobre essas situações?

Em relação à tortura, é um tema complexo. Na verdade, existe uma dubiedade para tratar deste assunto. Paira sobre a imprensa ainda o fantasma do poder militar no Brasil. Quando a imprensa divulga os processos contra torturadores no Uruguai e na Argentina, ela divulga de uma maneira mais isenta, mais livre, com menos espanto, com menos medo, me parece. E mostra os julgamentos que estão acontecendo lá. Quando é aqui no Brasil, parece que há uma espécie de temor dos formadores de opinião, de se chocarem com os porões da Operação Bandeirante, que estão todos soltos, produzindo blogues e vivendo normalmente. São os que mataram, assassinaram ou torturaram. Já os presos políticos, estes foram processados, cumpriram pena, foram presos, muitos torturados, depois foram anistiados. Então, eu acho que é uma espécie de temor reverencial à ditadura, que leva essas pessoas a divulgar de maneira tão deformada essa questão da punibilidade dos torturadores aqui no Brasil.

Nós temos que compreender isso dentro de um processo político, de uma transição política difícil, que no Brasil foi conciliada. Foi conciliada a tal ponto que o presidente do partido que dava suporte à ditadura militar se transformou no primeiro presidente da República que fez a transição para a democracia. Agora, a mim isso não impressiona, nem muda minha posição e nem me causa temor. Admiro e respeito as nossas Forças Amadas, pelo papel que elas têm na democracia e não pelo que fizeram na ditadura. Apoiei, como membro do Conselho de Defesa Nacional, a sua modernização e aperfeiçoamento tecnológico. Defendi mais recursos e melhores salários para os seus integrantes.  Acho que esta questão da tortura vai voltar no Brasil. E essa lamentável decisão do STF, com o voto espantoso para todos nós do ministro Eros Grau, ela um dia vai cair aqui no Brasil e o STF fará justiça. Isso não significa colocar ninguém na cadeia, nem perseguir generais que foram presidentes. Significa você ter o registro, na justiça, de que pessoas que cometeram barbáries possam ser julgadas pelo Estado de Direito. Apenas isso.

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1 Comentário

  1. Tarso esta preparado, esperiente para assumir o Estado, tendo nos sete anos de Governo Lula uma visão de Estado que levara o Rio grande ao seu lugar. Criou o Pronasci na segurança, o comabate ao Abigeato na fronteira e principalmente a UNIPAMPA na região mais pobre do Estado feito histórico, pois nunca ninguem se preocupou com a educação na região da Campanha.

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