Taiwan: a vitória da oposição e os sinais da China | Vinicius Wu

Quando Chiang Kai-Shek aportou em Taiwan, após percorrer quase dois mil quilômetros, acompanhado por cerca de um milhão de compatriotas, não pretendia fundar um novo país. O líder nacionalista, derrotado por Mao Tsé Tung, estabeleceu um governo paralelo ao de Beijing com a esperança de reunificar os chineses sob sua liderança. Taiwan, portanto, nasceu como a sede do governo exilado da República da China, não como um Estado independente.

Taiwan é, para o governo de Beijing, uma província chinesa rebelde e a ideia de “uma só China” é um dos princípios mais inegociáveis de sua política externa. O governo chinês sequer cogita a possibilidade de aceitar a independência da ilha e jamais deixou de declarar sua pretensão em reunificar o país. Mesmo assim, um acordo tácito foi estabelecido no qual a China se compromete a não intervir militarmente desde que Taiwan não declare formalmente sua independência.

As tensões entre China e Taiwan ocuparam um lugar de destaque na disputa pela hegemonia no continente asiático durante a Guerra Fria. Desde o fim da guerra da Coreia, os chineses buscam conter o avanço dos Estados Unidos sobre o estreito de Taiwan. Durante o governo de Eisenhower, os EUA chegaram a cogitar o uso de armas nucleares para debelar a crise instalada na região nos anos cinquenta do século passado.

Em meio à disputa entre China e EUA pela liderança da economia global – característica das primeiras décadas do século XXI – a questão de Taiwan assume novos contornos. Daí a relevância do resultado das eleições taiwanesas, realizadas na última semana, que opôs grupos políticos de oposição, simpáticos à independência de Taiwan, aos nacionalistas, que vinham desenvolvendo uma política de aproximação com a China nos últimos anos.

Tsai Ing-wen, oposicionista do Partido Democrata Progressista (PDP), ganhou as eleições com quase 60% dos votos, derrotando, pela primeira vez na história, os seguidores de Chiang Kai-Shek. Tsai apressou-se em afirmar que pretende “manter a paz e a estabilidade’, o que não impediu o China Daily – órgão oficial do governo chinês – de advertir, textualmente, que uma eventual declaração de independência significaria a guerra. O jornal fez questão de não usar meias palavras para expressar o humor do governo de Beijing.

A situação da presidente eleita não é simples. Sabe que terá de negociar com a China e manter o status quo – o acordo que garante a paz em troca da não-declaração de independência. Mas, ao mesmo tempo, enfrentará a pressão de seu eleitorado, em sua maioria abaixo dos 50 anos, jovens que se consideram taiwaneses e não chineses.

Tsai assumirá um país que mantém 40% de seu comércio internacional com a China continental e que, além disso, realiza 70% de seus investimentos externos no país liderado por Xi Jinping. O presidente Chinês, por sinal, realizou, recentemente, um encontro histórico com o antecessor de Tsai, num recado claro à então candidata pelo PDP.

Na reunião entre os presidentes dos dois países havia ficado evidente que os chineses já consideravam a vitória da oposição e se anteciparam em demonstrar a disposição de manter tudo como está. Qualquer coisa fora disso será respondido com vigor pela potência asiática.

O novo governo de Taipé terá de demonstrar habilidade para assegurar a política dos “três nãos” – não à independência, não à unificação e não ao uso de força militar – e ainda assim manter o apoio de seu eleitorado. Mas, a sinalização de Beijing foi bastante clara em relação ao que se espera do governo de Tsai e todo o equilíbrio de forças na região estará vinculado a manutenção desse compromisso.

Aos chineses não interessa precipitar nenhuma solução para Taiwan. Ao que tudo indica, querem seguir exercitando sua conhecida paciência e perseverança. Num encontro com Henry Kissinger, ex-Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mao Tsé-Tung teria afirmado que em cinco, dez, vinte ou cem anos, a China iria querer de volta Taiwan e que estaria disposta a lutar por ela. Kissinger percebeu o quanto de sinceridade havia naquelas palavras. Recomenda-se à nova presidente de Taiwan não desconsiderar esse aprendizado.

Foto de capa: Reprodução/YouTube

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