SOBRE DOIS BRICS: BRASIL E ÍNDIA | Elói Pietá

Este é o primeiro de três artigos que integram uma série especial sobre a Índia na ótica de Elói Pietá. Os textos serão publicados semanalmente.

Há um enorme déficit de conhecimento do Brasil na Índia e da Índia no Brasil. A impressão que fica em cada um dos países sobre o outro são estereótipos, que falseiam a realidade. Por isso, quando fui passar dois meses na Índia para estudar o país, meus amigos achavam que eu ia meditar ou praticar ioga. Que ia encontrar muitas vacas nas ruas. Como se os indianos vissem no Brasil apenas o carnaval, o futebol, ou a floresta amazônica.

Seria a Índia um país da meditação, do desprendimento material, da iluminação interior, do yoga? Hoje menos de 1% da população é budista, esta sim uma religião afeita a tais características. O hinduísmo, que não é uma religião contemplativa, é largamente dominante, abrangendo 80% da população, com milhares de deuses e deusas, protetores do lar, da fertilidade, da riqueza, da saúde, e de outros aspectos materiais da vida. (O islamismo representa 13% da população. A religião dos sikhs, que buscou a síntese entre hinduísmo e islamismo, abrange apenas 2%, semelhante ao número de cristãos). O povo da Índia é tão religioso quanto o do Brasil, e tão voltado aos trabalhos, dificuldades e prazeres da vida quanto o nosso. A partir da história, das tradições, do desenvolvimento econômico e social de cada um.

A Índia tem um pouco de Europa, um pouco de Brasil, um pouco de África.

Um pouco de Europa: tem expertise nuclear, tem bomba atômica. Tem forte tecnologia em informática e na área farmacêutica. É campeã em matemática. Tem profissionais de alto nível científico e tecnológico, exporta cérebros. Tem a mais extensa rede ferroviária do mundo. Tem uma cultura de milênios. Tem belos locais turísticos, obra humana.

Um pouco de Brasil: é industrializada. Passou também por um processo de substituição de importações. Tem grandes grupos econômicos e pessoal especializado com atuação em petroquímica, petróleo, aço, minas, eletricidade, tecidos, informática, telefonia, bancos, mercado de capitais, comércio atacadista, indústria automobilística, redes de TV, universidades, institutos de pesquisa, redes de hotéis, etc. O metrô de Delhi tem 190 quilômetros de linha. O aeroporto internacional é de fazer inveja aos nossos. Tem belos locais turísticos, obra da natureza, e uma variedade de climas conforme as regiões do país.

Um pouco de África. Tem uma impressionante desigualdade social entre seus 1 bilhão e 200 milhões de habitantes. A par de milionários que moram em bairros elegantes de ruas e calçadas largas, arborizadas, limpas, e da classe média ( cerca de 250 milhões de pessoas), tem, segundo estatísticas do governo, cerca de 450 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, entre as 800 milhões de pessoas com renda menor que 2 dólares por dia. O salário mínimo mensal é de 120 dólares, pouco respeitado. Quase 90% da força de trabalho está no mercado informal.  Cerca de 700 milhões de pessoas vive nas villages, pequenos povoados na área rural, a maioria dependendo da agricultura própria, a outra parte, trabalhando nas fazendas.

O povo da área rural é uma enorme fonte de mão de obra barata e informal para as cidades. Vai trabalhar na construção civil, com chinelo de dedo, sem capacete, sem luvas, mulheres carregando pilha de tijolos na cabeça, homens abrindo o asfalto com picaretas e marretas, sem registro, morando nas obras, nas ruas, em moradias precaríssimas.  Vem também para o pequeno comércio e serviços. E para comerciar nas ruas, onde se vende de tudo. É generalizado o preparo e o consumo de alimentos ali, em péssimas condições de higiene. Muitos outros trabalham por comida, cama, e mísero salário nas casas de família (domésticos, motoristas, seguranças). A mortalidade infantil está entre as maiores do mundo: a cada mil nascidos, 50 mortos no primeiro ano. 40% das crianças são desnutridas. O país tem 40 milhões de homens a mais do que de mulheres. Os altos índice de aborto tem como alvo principal o sexo feminino. No ranking do IDH mundial, entre 187 países a Índia é o país número 136.

As mercadorias, os alimentos, os serviços são mais baratos do que no Brasil. Dá para entender, pelos baixos salários e pela informalidade. Uma publicação acadêmica sobre a macroeconomia do país, no quadro comparativo do desemprego em 27 países do mundo, deixa vazia a parte reservada à Índia, com a nota ‘não disponível’. A margem de erro em estatísticas pode ser de dezenas de milhões, para uma população tão grande, boa parte sem registro civil.

Nos próximos artigos voltarei a novos temas correlatos. Abordarei como lá o capitalismo se construiu em cima de um sistema discriminatório de castas; como se implantou a atual estrutura econômica, inclusive com reformas neoliberais, e os reflexos da presente crise internacional; as suas instituições estatais herdadas do modelo inglês e os seus partidos políticos; o papel das Forças Armadas e outras forças de segurança face aos latentes conflitos com o vizinho Paquistão, originalmente parte de seu território, aos conflitos com a guerrilha comunista que persiste há décadas, ao terrorismo e aos conflitos religiosos.

Quando eclodiram os novos movimentos sociais de junho aqui no Brasil, eles acrescentaram uma dose de humildade ao nosso orgulho pelos avanços sociais e econômicos que tivemos na década recente e pelos avanços políticos e civis que tivemos desde o fim da ditadura militar. Reconhecemos que ainda há muitas precariedades a vencer na saúde pública, na educação, no transporte coletivo e na mobilidade urbana, no nosso sistema político, na superação das desigualdades. Quando estudei a Índia neste breve período, acrescentou-se em mim uma dose de humildade sobre o orgulho de nossa projeção internacional adquirida e de nossas atitudes agora soberanas. O Brasil, tirando os momentos das cúpulas governamentais dos BRICs, não tem presença importante nem naquele país tão populoso e destacado, nem em tantos outros países da Ásia. Há ainda uma longa estrada interna a percorrer, e também uma longa estrada externa. Os horizontes são tão largos quanto os desafios para progredir na direção deles. Ainda bem! Cabe-nos ir adiante, ao mesmo tempo em que afastamos os riscos da volta ao poder das forças conservadoras que querem segurar nossos avanços sociais e que querem voltar, no plano internacional, a uma política de submissão aos países que estão na nossa frente em poderio econômico e militar.

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