Radicalismos e intolerância na rede: os riscos do ciberativismo

por Vinícius Wu |

O uso intensivo da internet e das redes sociais digitais está contribuindo para a formação de perfis de atuação política marcados pela intolerância e pelo radicalismo. Diariamente, surgem polêmicas e debates nas redes cujos participantes parecem tomados por uma fúria cega contra toda e qualquer opinião divergente. Há uma relação direta entre esse tipo de comportamento e a racionalidade dos algoritmos, responsáveis pela distribuição e organização de dados nas redes sociais. O problema é que quase ninguém tem consciência disso.

Você já percebeu como muitas pessoas têm agido de forma intransigente em diversas polêmicas que surgem na internet? Provavelmente, você já tenha se envolvido em alguma delas. E você já deve ter reparado que muitas dessas pessoas não costumam agir da mesma forma em debates presenciais, nos quais são mais ponderadas e abertas ao diálogo. Penso que esse tipo de comportamento tem a ver com alguns dos mecanismos de funcionamento da web. Evidentemente, há outros fatores – culturais, políticos e sociais – a serem considerados, mas conscientemente os deixarei de fora desta análise.

Paixões e convicções nas redes

Há um clima de radicalização política permanente na web e, de repente, em torno de qualquer assunto, formam-se dois ou mais blocos de opinião diametralmente opostos, sem nenhum espaço para mediações. As pessoas refutam, com os argumentos mais simplistas, todo questionamento às suas opiniões a respeito do assunto do dia, ainda que seu nível de conhecimento sobre o mesmo seja mínimo.

A internet, portanto, está contribuindo para a banalização de um tipo de maniqueísmo político radical, que inconscientemente acaba por impugnar o debate de ideias, o espaço do contraditório, e isso tem muito a ver com o funcionamento dos mecanismos de seleção de dados e informação utilizados por plataformas como o Google ou o Facebook.
Claro que a internet, como qualquer tecnologia não é – em si – boa ou má. O uso que fazemos dela é o que define seu caráter. E, naturalmente, ela não é “culpada” pelo comportamento de seus usuários. Mas poucas pessoas têm consciência de que, na rede, as informações também podem ser manipuladas e que elas passam, a todo instante, por filtros automáticos que podem incidir profundamente sobre a formação da opinião.

Diante da produção e circulação massiva de informação na web – estimativas apontam para 2,5 quintilhões de bytes por dia – as empresas de tecnologia desenvolveram sistemas de seleção de dados visando facilitar a vida dos usuários. Assim, o que vemos em nossas “timelines”, seja no facebook, twitter ou outros, está organizado mediante um processo de seleção cuja finalidade é a apresentação de um conteúdo personalizado e previamente filtrado. Isso é feito automaticamente, através de algoritmos que terminam por “limpar” conteúdos não identificados com nossos perfis.

Esses filtros, obviamente, obedecem a uma racionalidade matemática e não há qualquer tipo de reflexão a respeito do que pode, ou não, interessar ao usuário. Assim, corremos o risco de receber informações que apenas corroborem aquilo que já pensamos a respeito de um determinado assunto; e isso é feito sem que as pessoas percebam. A divergência tende a sumir de nossas telas. E aí é que mora o perigo.
Aliás, é importante lembrar que os algoritmos usados nas redes sociais – como o EdgeRank do Facebook – são tecnologias cujas estruturas de funcionamento são mantidas sob sigilo e, portanto, não sabemos muito a respeito de como operam essas seleções de informações.

É evidente que o overload informativo, característico da internet, associado à escassez de tempo da vida contemporânea, terminam por tornar necessária a adoção de filtros, que permitam ao usuário selecionar informações sem custos e em pouco tempo. Mas é  importante que as pessoas tenham consciência de que a internet também criou novos intermediários, como corretamente nos adverte Tim Wu.  E é igualmente importante nos indagarmos se os algoritmos utilizados pelo Google ou pelo Facebook são realmente tecnologias “neutras”.

Tudo isso nos leva a refletir também a respeito da forma como as pessoas utilizam a web. A maioria utiliza a internet quase da mesma forma como faz com a TV. São consumidores passivos de informação, o espaço de tempo dedicado à prospecção é mínimo. As redes sociais digitais contribuem sobremaneira para isso, fazendo com que o usuário se contente com aquilo que aparece em sua “timeline”.

Claro que há muito mais espaço para visões diferentes e canais alternativos entre os consumidores passivos da internet se comparados aos da TV. Porém, os passivos da web possuem pouca ou nenhuma consciência a respeito da existência de intermediários, e os assuntos selecionados, automaticamente, por esses intermediários têm muito mais a ver com os hábitos de navegação e interesse do usuário do que com a relevância e a utilidade real para o indivíduo.

Considere-se ainda que, além disso, na internet o fluxo de informações é contínuo, ininterrupto. Logo, se temos um fluxo permanente e se as informações que recebemos são filtradas, então a consequência é que teremos diante de nossos olhos, em pouco tempo, um volume imenso de informações sobre um mesmo assunto. No caso de uma mesma opinião, o efeito será o de consolidar uma visão de que “tá todo mundo dizendo isso”.

Além disso, a recepção de um grande volume de informação a respeito de um mesmo tema termina por gerar uma sensação de urgência em relação a determinadas questões. Diversos estudos já demonstram como esses mecanismos incidem sobre o comportamento das pessoas em processos eleitorais, em campanhas publicitárias e mobilizações sociais, como a do 15-M espanhol.

Então, quando as pessoas são levadas a participar de alguma polêmica, muitas vezes adotam um comportamento explosivo, replicando informações em grande quantidade em suas próprias redes, contribuindo para o sentimento coletivo de urgência e eliminando o tempo da reflexão. E como os filtros agem mecanicamente retirando boa parte do conteúdo contrário, o resultado pode ser o estabelecimento de um consenso artificial e perigoso. Ainda temos os memes e virais que podem incidir sobremaneira sobre a formação de falsos consensos e disseminação de mentiras e boatos na rede.

Portanto, ainda que seja um entusiasta do uso das novas tecnologias da informação e comunicação para fortalecer a cidadania, não posso deixar de reconhecer que o ciberativismo pode estar gerando um exército de especialistas em sua própria opinião.

A intransigência e o radicalismo na rede devem ser rebatidos por quem acredita que o universo das redes deve servir à promoção da liberdade de opinião, ao pluralismo e ao debate democrático de ideias e não à reprodução de outras formas de alienação. Compreender a dinâmica de funcionamento das redes sociais digitais e seus filtros é algo indispensável à adoção de uma postura crítica e equilibrada diante das polêmicas reproduzidas diariamente pela internet. Talvez estejamos tratando de um dos maiores desafios da democracia no século XXI.

Compartilhe!

2 Comentários

  1. Agradeço pelo texto excelente, gerou uma ótima reflexão. Mas que ações poderiam ser tomadas para promover as mudanças tão necessárias nessa realidade?

    Responder

Deixe uma resposta