PIB e desenvolvimento regional | Tarso Genro

Emito uma opinião sobre o desenvolvimento regional a partir do que observo nas manifestações otimistas e pessimistas sobre o PIB gaúcho de 5,8% e o crescimento da indústria de 6,8%. Alguns não gostaram dos dados e trataram de depreciá-los, dizendo que isso só ocorreu em função da recuperação da agropecuária. Outros não gostaram porque isso ocorreu dentro do nosso governo. E fizeram suas análises a partir das disputas políticas locais, dando por irrelevante o nosso Programa de Desenvolvimento Industrial e o Plano Safra Gaúcho e omitindo a pujança do Estado em atrair investimentos industriais e expandir a base industrial aqui já alocada.

Quero colocar o debate a partir de uma outra visão. Até o fim do século passado, o ideal das economias desenvolvidas dominantes – no nosso caso, a partir da nossa dependência extrema dos Estados Unidos – era que fôssemos fornecedores de matérias-primas e constituíssemos, ou uma indústria não competitiva, ou uma indústria associada e dependente, sem força competitiva no mercado mundial. Hoje, entra na dança a China, como compradora exponencial de alimentos e já com capacidade de disputa, também nos produtos industriais de alto valor agregado, mais além das quinquilharias tradicionais fruídas na sociedade consumista.

A nova inserção do Brasil, juntamente com os Brics, na guerra comercial capitalista, que supõe, ao mesmo tempo, capacidade de diversificar, formar campos e promover relações de colaboração tecnológica, econômica e comercial, está num novo contexto da globalização. Neste, a dívida pública – para os países que estão fora do núcleo central do capitalismo – funciona ora como um freio, ora como canal de chantagem: “Cresçam devagar e apenas setorialmente, assim nós arrumamos o mercado mundial segundo os nossos interesses”, parecem dizer os “especialistas” dos países ricos e seus afiliados locais.

Para que esse desejo se realize, é necessário implementar duas condições: o enfraquecimento do setor público como orientador do desenvolvimento e articulador das relações produtivas regionais (daí a demonização da política que é feita, reiteradamente, por esses luminares); e, de outra parte, a “separação” da relação “cidade x campo” (indústria-agricultura), ora estigmatizando um setor, ora outro, distribuindo “culpas” e “prebendas”, pelo alto ou baixo crescimento, segundo a análise das consultorias privadas ou dos interesses de acumulação privada momentâneos.

Não vamos cair nessa esparrela. O setor agropecuário no Estado, mesmo com crises sazonais, é uma enorme vantagem competitiva do Rio Grande, juntamente com a nossa pujante agricultura familiar e empresarial, em regime de cooperação.

A produção de alimentos é uma moeda universal extraordinária e a base industrial do Estado – a que está na origem do desenvolvimento local – é puxada, não só pela agricultura, mas também por políticas públicas planejadas. Políticas que deem solidez financeira e tecnológica às nossas indústrias e proporcionem associações nacionais e globais enraizadas aqui no Estado. O que deveríamos lamentar é se as boas safras não alavancassem a indústria e se as indústrias, de fora do Estado e de fora do país, não quisessem vir para cá, em função de um setor agropecuário pobre e concentrado, situado num Estado sem planejamento.

Celebrar conquistas de todo o Estado não obstrui o debate e eleva a autoestima para continuarmos crescendo e gerando renda.

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