Hábitos de consumo da mídia por brasileiros | Elói Pietá e Cleyton Boson

Reorganizei uma notícia da Folha de São Paulo sobre pesquisa da Secom a respeito do acesso à comunicação pelos brasileiros. A reportagem misturava coisas. Dispersava a atenção para dar mais ênfase aos interesses do jornal. Exemplo típico de como a grande mídia interpreta e divulga a informação segundo o seu interesse empresarial e ideológico, a notícia da Folha começava pela frase de euforia empresarial: “Secretaria de Comunicação promete manter audiência como parâmetro para veiculação de anúncios oficiais”. Procurava diminuir a importância da internet, e exaltar os jornais como a fonte mais confiável para a população. Na sua cruzada ideológica, espinafrava o PT, dizendo que ele foi derrotado pelo governo pois queria mais verbas para a mídia regional e para sites e blogs alinhados a suas idéias.

A pesquisa sobre hábitos de consumo de mídia do brasileiro, foi encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República por R$ 2,4 milhões ao Ibope Inteligência. Foram entrevistadas 18.312 pessoas em 848 municípios do país. Realizada entre outubro e novembro de 2013, a pesquisa tem margem de erro de 1 ponto percentual, para mais ou para menos.

Segundo a pesquisa, no total, 97% dos brasileiros afirmam ver TV, 61% ouvem rádio, 25% têm hábito de ler jornal impresso e 15% de ler revista impressa.
E, sobre a internet, 53% dos entrevistados nunca entram na rede e 52% não possuem conexão em casa.

Ainda segundo a pesquisa, 53% afirmam confiar sempre ou muitas vezes nas notícias veiculadas nos jornais impressos, contra 50% do rádio e 49% da TV. A internet tem menor confiabilidade: 28% para sites e 22% para blogs.
Entre os que acessam a internet, o tempo médio de uso diário da rede durante a semana é de 3h39min, dez minutos a mais do que o tempo gasto com a TV.

Diz ainda a Folha de São Paulo: O ministro Thomas Traumann (Comunicação Social) disse que o governo não irá mudar o critério de distribuição de verbas de publicidade –um bolo com cerca de R$ 2 bilhões anuais do Executivo e estatais. “Os critérios são os que já existem e já estão sendo adotados desde 2008. São critérios técnicos, baseados em audiência, no caso de TVs e rádios, e de circulação, no caso de jornais e revistas”, disse o ministro, que assumiu o cargo em fevereiro. O crescimento da internet é refletido na publicidade estatal: a Secom destinava 8% de suas verbas para a área em 2011, passando a 9,5% em 2012, 11,5% em 2013 e 15% previstos para este ano. Sua antecessora, Helena Chagas, havia sido bombardeada pelo PT por defender parâmetros como a audiência para definir a divisão das verbas. O partido queria priorizar veículos menores de mídia regional, além de sites e blogs alinhados ao Planalto.

Abaixo algumas conclusões que tirei da pesquisa, reordenada com mais objetividade.

1-A pesquisa é bem abrangente: mais de 18 mil pessoas em quase 850 municípios.

2-A TV continua a ser o maior comunicador (97%). Ela impera assim porque está mais perto do que a vida é no dia a dia: ver e ouvir as outras pessoas ou as circunstâncias que as envolvem, através de imagens, vozes, movimento e cores. A foto carece do movimento. A escrita é uma representação codificada, bastante afastada da realidade corporal.

3- A metade das pessoas confiam sempre ou muitas vezes na TV. Isto é muito importante. Mostra  a força da TV e dos interesses e ideias das empresas proprietárias dos canais e das empresas anunciantes de sua publicidade. A TV é hoje o martelar constante, nas mentes da população, dos ideais individualistas que movem o capitalismo. Nas concepções sobre o mundo e nos costumes sua influência é enorme. Em política, também. No caso da política nacional ou local, o povo ainda tem condições de confrontar, pela percepção de sua vida prática, quem é melhor ou pior para ele. Diferente fica a política internacional. Nela, as pessoas tem extrema dificuldade de confrontar a versão da TV com o que seria captado na realidade pela percepção individual. O que ela diz é difícil de confrontar se é verdadeiro ou falso. Neste acaso é evidente que na TV brasileira, a ótica sob a qual são transmitidos os fatos ou as opiniões veiculadas, o são pela visão norte-americana da política internacional. Há um imperialismo da notícia, muito maior do que no âmbito das notícias internas ao país.

4- A metade acredita na TV. Isso é muita gente. A outra metade é crítica. Ela tem bem presente que a TV é feita ‘pelo outro’. Que aquilo que o ‘outro’ diz ou pensa deve ser posto na balança da dúvida. Esta é a metade que resiste, seja por suas concepções diferentes daquelas que a TV expressa, seja por se informar através de outros veículos. Mesmo assim, esta outra metade é influenciada pelo que a TV apresenta. Tudo o que o ‘outro’ repete e no qual insiste cotidianamente influencia. Eis a razão da censura nos estados totalitários.

5- Há vastos setores da vida que a TV não abrange e sobre os quais não lança luz. A TV omite por exemplo: as idéias, concepções, produção intelectual ou artística que a ela não interessam; o cotidiano das pequenas cidades; os acontecimentos diários dos bairros nas grandes metrópoles; os episódios da vida local que não são trágicos, bizarros, impactantes; a política local quando ela não é escândalo. Nestes e outros casos de omissão, os veículos de informação são outros: o rádio, o jornal ou similares, o boca-a-boca.

6- Quase dois terços da população ouve rádio. O rádio substitui a TV em ambientes nos quais o olhar está dirigido a outros afazeres, mas os ouvidos estão disponíveis. O número de pessoas que confia no rádio é semelhante ao que confia na TV. Maior não poderia ser, pois a TV tem a vantagem da imagem para ser conferida. O papel ideológico do rádio é semelhante ao da TV, e a ele se aplicam as mesmas observações.

7- São milhares de emissoras de rádio. O rádio substitui a TV nos segmentos de público que nesta não encontram suas preferências musicais ou religiosas, por exemplo. Mas, sobretudo o rádio supre a ausência de informações locais não encontráveis na TV. Nisto concorre com os jornais.

8-O alcance do jornal impresso naturalmente é menor do que TV e rádio porque lhe falta imagem ou voz em movimento. Para as pessoas é mais fácil ver outras pessoas em ação, e ouvi-las, do que ler ou apenas constatar a imagem congelada. Analfabetos totais ou funcionais não lêem, mas vêem e ouvem. Os 25% que lêem jornais impressos e os 15% que lêem revistas são, a grosso modo, os mesmos.

9-A credibilidade dos jornais não é muito maior do que a de outros veículos (qual a grande diferença entre 53% confiar nos jornais, 50% confiar nas TVs, 49% confiar nas rádios?). A pequena diferença se dá talvez porque jornais desenvolvam com mais detalhes os assuntos. A linha de interesses empresariais e de ideologia dos grandes jornais e revistas nacionais ou regionais não é diferente de TVs e rádios. Os jornais impressos locais cobrem aquelas notícias locais omitidas nas TVs e nos outros grandes veículos. Nas notícias mais gerais reproduzem os grandes veículos de comunicação. O monopólio ideológico se completa.

10-A internet é menos acessada que as TVs e rádios, porém mais acessadas que jornais e revistas. Se 53% nunca entram na rede, e 52% não se conectam com a internet em casa, 75% nunca lêem jornais. Se 47% entram na rede da internet, 61% ouvem rádio, apenas 14% a mais. É muito, mas não é tão escandalosa a diferença quanto parece. E, a maioria que ouve rádio, o faz para ouvir música.

11- Segundo o IVC (Instituto Verificador de Circulação), a circulação de jornais impressos vem caindo ano após ano e o setor está sendo salvo pelas assinaturas digitais. Segundo o IVC, a Folha de São Paulo tem circulação diária de 289.451 exemplares, contudo, o site da Folha possui cerca de 23 milhões de visitantes únicos por mês (860 mil visitantes únicos por dia). Isso somente no site da Folha, se contarmos o portal UOL, o número passa de 50 milhões de visitantes únicos por mês (cerca de 1.600.000 visitantes únicos diários.)  Visitantes únicos significa que se a pessoa entrar no site pelo mesmo computador o mês inteiro, ela só será contado uma vez nesse período de 30 dias. E veja que estamos falando de um único portal, pois globo.com, Portal Terra, R7 (ligado à Record), IG (ligado ao Estadão) cada um destes possuem número de visitantes únicos na casa de 30 milhões por mês.

12-O problema maior da internet em relação a outros veículos seria a credibilidade (apenas 28% a 22% na pesquisa para sites e blogs) . Todos podem se manifestar e se responsabilizar pelo que dizem na internet. O ‘outro’, sendo tão individual, numeroso, com histórico pouco conhecido, é menos confiável. Porém, se o Papa tivesse um site, por ele confirmado, a credibilidade do site seria semelhante à credibilidade da Igreja Católica. Se a pesquisa investigasse a credibilidade dos grandes sites das grandes TVs, rádios, jornais, certamente seria semelhante a estes veículos. As grandes empresas em todos os setores (veículos, alimentos, bebidas, vestuário, sistema financeiro, serviços, etc) zelam muito pela credibilidade, sem a qual sucumbem perante a concorrência. O mesmo não ocorre com os indivíduos. Mais uma vez, emerge a importância do monopólio da mídia na informação.

13- Ainda sobre a confiabilidade da internet, pode ser que a pergunta do questionário confundiu os pesquisados que percebem a internet apenas como o mundo do Google, do Youtube, do Facebook e dos blogs. Duvido que a confiança no portal UOL, ou o portal da Globo, seja menor que a versão impressa da Folha ou que a TV Globo. Mesmo porque, estes grandes portais (e até muitos menores) trazem não apenas textos e fotografias, mas também vídeos dos acontecimentos (foi na internet que a violência da polícia de São Paulo, contra o Movimento Passe Livre, foi mostrada em imagens incontestáveis em junho de 2013).

14- O ministro da Comunicação Social, Thomas Traumann, disse que o governo não irá mudar o critério de distribuição de verbas de publicidade (cerca de R$ 2 bilhões anuais do Executivo e estatais). Segundo ele, são critérios técnicos, baseados nos acessos à informação, e de circulação, no caso de jornais e revistas, pesquisados agências. Portanto, o governo não se dispõe a levar para a sociedade a disputa de ideologia, de concepções, de costumes, de interpretação da política, com a grande mídia. A não ser através dos espaços que lhe são fornecidos pela mídia empresarial, ao final, ‘comprados’ pela publicidade governamental. Nem reformismo temos nesta área, muito menos encarar inovadoramente o grande tema da comunicação de massas na sociedade da informação.

15-Com relação à afirmação do ministro Thomas Traumann de que a política de distribuição de verbas de publicidade continuará a mesma, considero um equivoco do ponto de vista ideológico e do ponto de vista da gestão. Do ponto de vista ideológico porque reforça a concentração da mídia em poucas mãos e mantém o governo refém dos grande grupos. Do ponto de vista da gestão porque não leva em conta a mudança de modelo de negócio do campo da comunicação promovida pela popularização da internet no Brasil. Não só é relevante o dado de que 48% da população acessa a internet com regularidade, é muito relevante também os números das vendas de smartphones no Brasil em 2013 que superaram a venda dos celulares tradicionais. Segundo a Anatel, o Brasil hoje  possui mais 94 milhões de smartphones habilitados (eram 33 milhões no final de 2011) e a IDC acredita que esse número deve subir significativamente em 2014.

16- Se o brasileiro está investindo em smartphones (somados aos tablets, são mais de 103 milhões de conexões de banda larga móvel habilitadas no país) é porque quer acessar e distribuir informações via internet (caso contrário permaneceriam com os celulares tradicionais). O Governo Federal quer se comunicar com esse público mantendo o mesmo modelo de gerenciamento da comunicação e de distribuição de verbas de publicidade dos últimos anos?

17- O crescimento da internet se refletiu na comunicação estatal. Saltou de 8% em 2011 para 15% em 2014. Único progresso, talvez mais relacionado com o crescimento do peso da internet enquanto veículo, do que da vontade de travar uma disputa de concepções sobre a sociedade. Embora a verba para internet não tenha aumentado na mesma proporção em que a internet aumentou sua participação no mercado. Portanto, não se trata apenas de repensar a distribuição das da verba de publicidade, mas de repensar o próprio modelo de negócio da comunicação pública no Brasil.

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