Os julgamentos do presente (sobre as escolhas de Molon e Randolfe) | Tarso Genro

Herman Melville é conhecido pelo seu fabuloso “Moby Dick”, terminado em julho de 1851 e publicado no mesmo ano, em outubro, em Londres. O livro foi recebido friamente pela crítica, mas foi considerado mais tarde um dos grandes romances da literatura contemporânea. Fazendeiro-escritor, à época, Melville é também autor de um texto maravilhoso – que provavelmente hoje seria classificado como um “ensaio”- “Hawthorne e seus musgos”. É um pacto de amizade e fraternidade com seu amigo, a quem dedica o ensaio, impelido pelo fervor da construção de uma literatura genuinamente americana, que ele defendia quase como anunciadora de formação da jovem nação.
Ao defender a criação de uma identidade própria, para a literatura americana, sem desdenhar da literatura inglesa do Século XIX, Melville lembra que os julgamentos do presente, centrados nas tensões do presente, nem sempre são os que fazem história e diz: “Não devemos nos esquecer de que, em sua própria época, Shakespeare não era Shakespeare, mas somente o sr. William Shakespeare da hábil e florescente firma Condell, Shakespeare e Co., proprietários do Globe Theatre de Londres.”
Lembro este episódio literário, a partir deste grande autor que também diz, no mesmo ensaio, que “aquele que nunca fracassou em alguma parte, tal homem não pode ser grande, o fracasso é a verdadeira prova de grandeza”. É uma frase que poderia servir para muita gente em todas as épocas, inclusive a presente, mas lembro-a, agora, com vínculo a duas opções políticas, feitas por dois líderes importantes do campo da esquerda, no Brasil, deputado Alessandro Molon e Senador Randolfe Rodrigues. Ambos deixaram os seus respectivos partidos e optaram pela Rede, da ex-Senadora Marina Silva, recentemente registrada.
Tanto o deputado Molon, como o Senador Randolfe – pelo que conheço de ambos – não estão fazendo esta opção por oportunismo ou vantagens políticas pessoais. São homens de esquerda, que se opuseram à natureza dos ajustes ortodoxos do Governo atual e que, me custa a crer o contrário, não estariam se trasladando para um campo político que caracterizou as últimas intervenções de Marina Silva, no cenário nacional: o campo demo-tucano, das reformas liberais, combinadas com a crescente vontade de desestabilizar e derrubar uma Presidente legitimamente eleita. Este campo, na minha opinião, jamais seria o campo destes dois quadros da esquerda que, independentemente de divergências, até ontem eram respeitados e elogiados por todos nós.
Se bem conheço os personagens deste cenário, ambos devem ter feito algum tipo de negociação política com Marina, de que a sua nova Rede não seria furada por “palometas”, que abririam rombos pelos quais transitariam acordos com a direita e com a centro-direita, como ocorreu recentemente nas eleições presidenciais. Posso estar enganado, mas se este acordo ocorreu de maneira formal, Marina Silva, a quem conheço há décadas, sendo uma pessoa de caráter, como efetivamente o é, cumprirá o ajuste. E aí teremos um novo cenário partidário no país, que poderá permitir coalizões mais orgânicas e frentes mais programáticas, que até poderiam ser testadas, em algumas cidades, em 2016.
Temos assistido na vida democrática recente, as composições políticas mais esdrúxulas, as frentes mais atípicas, as coalizões mais originais, que às vezes redundam em cenários econômicos positivos, às vezes dramaticamente negativos para o país. Ocorre que este cenário histórico está chegando ao fim e os problemas que o mundo atravessa e o país atravessa, passam a dividir de forma mais clara, as posições de esquerda e direita, que se defrontam com um dilema que pode ser uma esfinge: a única forma de sair de crises como a presente é pela via da destruição das conquista sociais, dos choques de desemprego e de sugamento das energias produtivas através dos juros altos?
A resposta a este dilema é que vai caracterizar, daqui para diante, as posições democráticas de esquerda e progressistas no país. Temos que buscar, nos diferentes espectros partidários, lideranças, grupos políticos, partidos, frações de partidos, que estejam dispostos a acordar um novo programa econômico e social, baseado na soberania alimentar, no crescimento com emprego, na sustentabilidade ambiental, na participação popular na gestão pública, na soberania nacional e no bloqueio à privatização do Estado para as forças do rentismo e do conservadorismo.
Se estou certo, na minha análise – posso estar redondamente equivocado – Molon e Randolfe não estão abandonando o barco da esquerda, mas procurando construir algo dentro de outros barcos. Parodiando Melville, barcos dos quais eles ainda não são capitães, mas podem vir a sê-lo, como Shakespeare, que não era Shakespeare na sua época. Talvez fracassem, mas, se mantidas as suas intenções originais, seu fracasso será uma prova de grandeza.

Foto: EBC

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