O ocaso da “Terceira Via” – Parte II

por Tarso Genro e Vinícius Wu

Gordon Brown: O Trabalhismo inglês não foi capaz de preparar o país para resistir à crise mundial

Mas, afinal, qual o legado da “Terceira Via” em meio ao ocaso de uma hegemonia que até pouco tempo parecia tão sólida?

Não seria preciso um grande esforço de análise para concluirmos que a auto-intitulada “Terceira Via”, em sua tentativa de estabelecer “diálogos” com o neoliberalismo terminou engolida por este. O Trabalhismo inglês não foi capaz de preparar o país para resistir à crise mundial, que arrasou importantes instituições britânicas e ampliou o desemprego e a miséria. Economicamente, além de não blindar a economia britânica, também conduziu o país num ritmo de crescimento que só fez reduzir sua relevância na economia global, reforçando a centralidade da economia alemã no contexto europeu.

A descaracterização político-ideológica do Trabalhismo inglês foi tamanha ao ponto de a Inglaterra se transformar na grande fiadora da invasão dos EUA ao Iraque, ocasião na qual Tony Blair afirmou “não haver duvidas” que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.

A convergência do trabalhismo e dos conservadores para um centro anódino que não produziu novas alternativas de coesão e inclusão social e nem novas formas de controle público do Estado, não só confundiram o eleitorado de esquerda e social-democracia, como também não responderam ao necessário reencontro da esquerda com os valores democráticos e com as exigências dos novos modos de vida, incrementados pelas novas tecnologias informacionais.

Até mesmo o prestígio internacional, que outrora gozavam os próceres da “Terceira Via”, foi reduzido a pó e nem mesmo aquela parcela da social-democracia convertida aos dogmas neoliberais (como o PSDB no Brasil) tem coragem de assumi-los como referência hoje.

Ocorre que uma verdadeira “terceira via” – a que realmente poderia regenerar os valores humanistas da esquerda, depositária das idéias libertárias da ilustração e das grandes revoluções – jamais poderia emergir de uma parca “mistura” da idéia da democracia com a anarquia do mercado sem regulação.

Somente seria possível falar em uma “terceira via” a partir de uma síntese superior do republicanismo democrático com as idéias de emancipação herdadas daquela social-democracia anterior ao seu conhecido “racha”, determinado pela exceção da revolução russa.

Ao nos recordarmos do quanto foram incensados, mundo afora, os ideólogos da “Terceira Via” inglesa naqueles anos cujo pensamento de esquerda ainda caminhava, errático, pelos escombros do antigo muro, não deixa de parecer irônico que, neste início de século, seja exatamente da América do Sul que surjam ares renovadores no seio da esquerda mundial. E eles se expressam em plataformas concretas de governos democráticos, dirigidos por aqueles mesmos partidos de esquerda (por vezes aliados ao centro democrático) sobre os quais o trabalhismo inglês pretendeu despejar suas lições.

A esquerda do velho continente abre o século XXI diante do desafio de fundir o antigo humanismo libertário das grandes revoluções com a democracia assumida enquanto valor universal. E pode encontrar na América Latina um bom terreno de observação.

Leia aqui a Parte I deste artigo

Compartilhe!

Deixe uma resposta