O ocaso da “Terceira Via” – Parte I

por Tarso Genro e Vinícius Wu

O esgotamento da "Terceira Via" mostrou-se no resultado das últimas eleições inglesas

Há treze anos, o Trabalhismo inglês ascendia ao poder com uma nova roupagem. A “Terceira Via” proposta por Blair, Giddens, entre outros, pretendeu renovar o pensamento e a ação da esquerda européia, indicando um caminho alternativo frente à crise do projeto social-democrata tradicional e do socialismo soviético. O resultado das últimas eleições inglesas atestam o esgotamento desta experiência e seu significado tem muito a dizer à esquerda neste início de século.

O debate no interior da esquerda sobre o futuro do socialismo pós-Muro de Berlim foi conduzido principalmente pelos ideólogos mais eminentes da social-democracia e do trabalhismo inglês, num momento em que a esquerda de orientação marxista dividia-se – em suas diversas vertentes teóricas – entre a perplexidade e a tentativa de explicações imediatistas.

Como a social-democracia já descartara – há muitas décadas – um projeto de ruptura com o capitalismo, sua opção por um novo caminho não a conduziu na direção de um eventual corredor entre o velho bolchevismo do partido único e a social-democracia, que triunfara em vários países da Europa. Sua opção foi a busca por um lugar situado entre o centro e a centro-esquerda, por ela representada, abrindo espaço para uma espécie de acordo “tácito” com alguns princípios fundamentais do projeto neoliberal, que advogava em favor do desmonte das conquistas do Estado de Bem-Estar como única maneira de “sair da crise”.  O serviço foi feito

As sucessivas crises do capitalismo global depois da queda da URSS demonstraram, porém, que a capitulação da social-democracia ao domínio do capital financeiro como tutor da vida pública universal e seu distanciamento dos movimentos sindicais e populares que lhe deram origem, empobreceram seu ideário político e lhe afastaram dos “de baixo”, vulgarizando sua agenda como uma agenda “materialista-economicista” no mau sentido. Terminou por enveredar para uma tentativa anêmica de salvar o capitalismo específico da globalização financeira, sem considerar o empobrecimento da sua base social e a sonegação de seus direitos básicos.

A social-democracia, portanto, não encontrou um caminho salvacionista, que consolidasse os “direitos dos pobres” – conquistados ao longo de décadas – mesmo  dentro do  modo de vida e das estruturas de poder da sociedade capitalista. Os frutos do progresso científico e da produtividade acabaram sugados pelo “rentismo globalizado” no desvario que redundou na crise do “sub-prime”. E, desta forma, a social-democracia européia foi perdendo, gradativamente, força social e legitimidade política. O caso inglês, neste sentido, é paradigmático.

Cumpre reconhecer que alguns acertos parciais do Trabalhismo inglês tiveram reflexo nestas eleições. A hegemonia trabalhista na última década foi capaz de produzir (ao menos) uma importante mudança no léxico político nacional, fenômeno atestado por um interessante levantamento da revista “The Economist” acerca dos recentes debates. David Cameron, líder conservador, apoiou-se no lema “Conservadorismo com compaixão”, explicitando um claro deslocamento ao centro de seu partido. Os temas que se relacionam com o “cuidado com os mais pobres” estiveram no centro dos debates eleitorais.

Além disto, alguns resultados sociais dos governos trabalhistas são relativamente positivos: o acesso à saúde foi ampliado significativamente, assim como o acesso ao ensino superior; meio milhão de crianças saíram da pobreza e os investimentos em educação foram duplicados nestes treze anos.

Entretanto, apesar de alguns avanços como estes, os governos trabalhistas não lograram resolver, nem ao menos parcialmente, os principais impasses do modelo sócio-econômico britânico. A desigualdade social, por exemplo, se manteve estável, incidindo fortemente sobre o nível de satisfação dos britânicos com seu país. Pesquisa recente revela que 71% da população acreditam que o país está se tornando um lugar pior para se viver.

(continua amanhã)

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