O Governo Tarso Genro pós-Junho/13 | Vinícius Wu

O grande acontecimento político do ano de 2013 foram os protestos de Junho. As reações ao processo de mobilização e as respostas apresentadas pelos governos municipais, estaduais e federal definiram, em grande medida, o ambiente político do país no último semestre. A mais recente pesquisa CNI-Ibope atesta que Tarso Genro foi o governador que mais cresceu em aprovação após as mobilizações (conta com 50%, segundo o Ibope). Analisar os motivos desse desempenho não parece ser algo irrelevante para a compreensão da política nacional no último ano.

Entre os jovens de 18 a 24 anos a aprovação de Tarso subiu quase vinte pontos percentuais no período que vai de Junho a Novembro do corrente ano. Nesta parcela da população, a aprovação do desempenho do Governador frente aos protestos chega a 62%, segundo levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Se considerarmos todas as faixas etárias, 58% dos gaúchos aprovaram a atuação de Tarso durante as mobilizações e apenas 28% desaprovaram. Trata-se de um resultado que distancia o Governador da maioria de seus congêneres país afora.

Até mesmo em relação à atuação da Polícia Militar verifica-se que a maioria da sociedade gaúcha aprovou a condução do governo petista. Para 50% dos gaúchos, a Brigada Militar agiu com violência, mas sem exageros durante os protestos. Outros 30% avaliam que a polícia gaúcha agiu sem violência e apenas 15% acreditam que agiu com muita violência, de acordo com o estudo da FGV.

Diversos fatores contribuíram para essa percepção geral positiva. A posterior aprovação do projeto que estabelece Passe-Livre para os estudantes das regiões metropolitanas tem relação direta com a formação da opinião majoritariamente simpática à reação do governo gaúcho. A proposta, surgida das ruas, foi incorporada pela Administração Estadual. Mas a grande diferença parece ter sido a capacidade de diálogo do governador e a existência de diversos canais, previamente estabelecidos, de consulta e escuta à sociedade no âmbito do Sistema Estadual de Participação.

O Gabinete Digital, criado ainda em 2011, possibilitou o estabelecimento de uma comunicação direta com os manifestantes, sem nenhum tipo de intermediação, expondo o Governador de forma transparente e acessível em um dos momentos mais tensos da política nacional nos últimos anos.

Uma das audiências publicas digitais, realizada em 20 de Junho com transmissão pela internet, contou com o envolvimento de meio milhão de cidadãos e cidadãs, mobilizados pelas redes sociais digitais. Na ocasião, Tarso debateu diretamente com ativistas do Rio Grande do Sul e do país, recebeu críticas, ouviu e respondeu a diversas questões e retirou dali orientações para a atuação posterior de suas forças policiais. Foi um evento memorável, possível graças a uma atitude corajosa do governo. O diálogo, com alto grau de improviso e espontaneidade, foi realizado horas antes de assistirmos a uma das maiores manifestações populares já realizadas no país.

O Gabinete Digital realizou, ainda, uma série de outras audiências públicas digitais, nas quais o Governador do Estado debateu diversos temas com ativistas, especialistas e lideranças sociais. Todos os debates ocorreram com participação simultânea de milhares de pessoas pela rede, sem nenhum tipo de filtro ou censura. Algo singular no Brasil durante os intensos meses de Junho e Julho.

Através do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES/RS), o governo logrou processar proposições que surgiram das ruas e transformá-las em ações. O projeto que instituiu o Passe-Livre, por exemplo, foi sendo construído através de inúmeras rodadas de negociação, em meio à complexidade do diálogo com um movimento de massas declaradamente desprovido de lideranças. E nem por isso o processo deixou de ser ágil e gerar resultados.

Certamente, se estes mesmos canais de participação e diálogo – Gabinete Digital e CDES – tivessem sido constituídos às pressas, apenas para dar respostas às mobilizações de Junho, o resultado teria sido bem diferente. Dificilmente conquistariam legitimidade e reconhecimento público para se tornarem ferramentas válidas ao processamento dos debates suscitados pelos protestos de 2013. Mas, por terem sido organizados desde o primeiro ano do Governo Tarso, conquistaram a legitimidade necessária ao desfecho positivo que obtiveram.

As pesquisas de opinião comprovam o acerto do governo do Rio Grande do Sul ao apostar na conformação de um complexo Sistema de Participação Cidadã, que vai se tornando referência internacional. Recentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) concedeu um prêmio ao Governo gaúcho pelo Sistema e o Banco Mundial já havia premiado também o Gabinete Digital, experiência que já conta com expressivo reconhecimento dentro e fora do país.

E a participação da sociedade atesta a validade da experiência. A última consulta ao orçamento, realizada pelo Governo gaúcho, contou com a participação de mais de 1,2 milhões de pessoas. E o Gabinete Digital promoveu a maior consulta pública digital já realizada até aqui no Brasil no ano de 2012.

É possível afirmar, sem incorrer em nenhum exagero, que o Governo Tarso é outro depois dos protestos de Junho. A disposição em dialogar, ouvir e abrir-se à participação efetiva da cidadania permitiu um posicionamento singular do governo gaúcho durante as grandiosas mobilizações de Junho.

Frente àquele que foi o principal evento político do ano de 2013, o Governo do Rio Grande do Sul fez valer toda a história de estímulo e valorização da participação popular, originária das administrações petistas de Porto Alegre, que inspiraram o mundo através do Orçamento Participativo e do Fórum Social Mundial.

O ano de 2013, portanto, deixa um aprendizado valioso para a esquerda gaúcha que pode – e deve – ser compartilhada com a esquerda brasileira, em especial no próximo ano, quando a capacidade de renovar a esperança do povo brasileiro em nosso projeto transformador e democrático estará, novamente, diante de um teste decisivo.

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