O dedo na ferida

A síntese de 2010: nunca a opinião pública esteve tão distante de seus supostos intérpretes

por Leonardo Attuc, publicado na revista Isto É de 27/9/2010

A poucos dias das eleições, tudo indica que de forma democrática, legítima e soberana o Brasil elegerá a primeira mulher presidente da República. Goste-se ou não de Dilma Rousseff, sua provável vitória no domingo 3 carrega uma mensagem. Os brasileiros, em sua esmagadora maioria, estão felizes com os rumos do País. Sentem-se mais prósperos e com um acréscimo considerável de autoestima. Apesar desse bem-estar, 2010 ficará marcado como o ano em que os anseios, as percepções e os desejos dos brasileiros foram solenemente ignorados por seus supostos intérpretes. Nunca, em toda a história do País, houve um distanciamento tão nítido entre a opinião pública e aqueles que deveriam, simplesmente, decifrá-la.

Engajados que foram durante todo o processo eleitoral, alguns agentes de proa da comunicação hoje enxergam o País como uma pré-ditadura. Uns dizem que o Brasil não tem mais cidadãos, mas apenas consumidores, que trocam direitos fundamentais por um prato de lentilhas. Outros afirmam que a oposição – e isso inclui parte da imprensa – está para Lula assim como os judeus estiveram para os nazistas. E que, portanto, seria hora de se preparar para a grande batalha de resistência democrática, como se a liberdade de expressão, um direito fundamental, corresse perigo. Há até quem já condene o sufrágio universal, argumentando que muitos brasileiros não estão preparados para votar porque desconhecem o significado de conceitos como quebra de sigilo e estado de direito.

O problema é que os supostos formadores de opinião se comportaram nos últimos meses com uma ideia fixa: a de que José Serra tinha o direito inalienável de ser presidente – e tudo o mais seria ilegítimo. Esqueceram-se de que a liberdade de imprensa permite que qualquer pessoa escreva, sob as penas da lei, que pacotes de dinheiro são distribuídos nos palácios, mas também assegura aos alvos das denúncias o direito de expressar suas opiniões. E quando alguém acusa A, B ou C de ser parcial, apenas exerce um direito. De concreto, o que o governo Lula fez contra a liberdade de expressão? Fechou emissoras de tevê, como Hugo Chávez? Não. Pediu a prisão de donos de jornais, como Cristina Kirchner? Também não. O único movimento nessa direção ocorreu em 2005, quando a ala stalinista no PT tentou usar a Polícia Federal na Operação Gutenberg para prender alguns jornalistas, porque teve interesses comerciais contrariados. Naquele momento, os fariseus que hoje gritam por liberdade ficaram calados. E a grande frustração dessa turma é apenas uma: por mais que tenham tentado empurrar Lula na direção do chavismo, ele não cruzou a fronteira. O que Dilma, se for inteligente, também não fará. O pior castigo é tratar os irrelevantes como irrelevantes.

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1 Comentário

  1. O grande crime da imprensa brasileira a meu ver é: Manter-se “neutra” não deixando clara a quem apoiam.
    Quando lemos “noticias” em um jornal ou revistas, acreditamos ser aquilo uma investigação sincera. Se lemos que determinadas frutas prejudicam a saúde jamais imaginariamos que aquela é uma matéria paga por um produtor de sobremesa pré fabricada…
    A postura parcial da imprensa poderia ser criminalizada, facilmente baseada no conceito mais simples das leis que regem a publicidade, ou seja matéria paga é matéria paga, e obrigatoriamente deve informar seu propósito.

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