O Brasil de John Gerassi

por Vinícius Wu

“(…) o Brasil não pode ser ignorado. Quando ele sonha, sacode Washington. Quando se move, desloca o continente. E quando explodir, abalará o mundo. O Brasil tem a capacidade, o espaço territorial, o intelecto e a força necessária para se tornar uma potência mundial. Somente ele pode tirar a América Latina de sua paciente e desesperançada letargia, colocando-a na estrada do progresso e da justiça. Que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, virá a desempenhar esse papel ninguém duvida.” John Gerassi

Não, caro leitor, John Gerassi não é nenhum entusiasta da política externa do governo Lula. Nem tampouco se trata de algum grandiloqüente e otimista servidor do Itamaraty. O raciocínio sequer tem a ver com o novo papel desempenhado pelo Brasil na atual ordem global.   Na verdade, trata-se de uma conclusão feita no ano de 1964 por um reconhecido estudioso da realidade latino-americana.

Os mais antigos talvez se lembrem com mais facilidade de John Gerassi e de sua obra mais conhecida no Brasil, “A invasão da América Latina”, lançada em nosso país no ano de 1964 e de onde extraímos o trecho citado acima. Gerassi foi um eminente jornalista norte-americano, redator da revista TIME e, posteriormente, encarregado de assuntos latino-americanos da NEWSWEEK. O referido livro causou indignação nos EUA ao denunciar diversas manobras políticas, sabotagens e golpes patrocinados pela CIA e pelo Pentágono na América Latina.

Gerassi conheceu profundamente a realidade latino-americana. No Brasil acompanhou de perto, nos anos que antecederam o golpe civil-militar de 1964, a experiência desenvolvida por Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, personalidade política latino-americana que lhe despertou profunda admiração.

Reler Gerassi talvez nos ajude a compreender melhor o Brasil de hoje. E, para muitos, talvez seja um caminho para o reconhecimento da importância estratégica dos movimentos realizados pelo governo brasileiro no âmbito de sua política internacional. Para aqueles que encontram imensa dificuldade em superar a “síndrome de vira-latas”, que tanto apequena as pretensões de alguns articulistas da grande mídia, esta talvez seja uma leitura necessária e (por que não?) reveladora.

"Gerassi talvez lhes fosse útil para que compreendam o peso em potencial do Brasil na (re)definição da ordem internacional deste início de século."

A forma como diversos setores da grande mídia trataram o acordo obtido pela diplomacia brasileira no Irã é paradigmática. Foi preciso que o jornal britânico Financial Times saísse em defesa da ação do governo brasileiro para que alguns veículos transitassem para uma postura “tolerante” em relação aos movimentos do Itamaraty. Uma desmedida vocação para a subserviência aflorou com uma intensidade poucas vezes vista em nossa história recente. Os mesmos que avocam a defesa da “soberania nacional” e dos “interesses do país” em relação a temas que envolvem países como Bolívia ou Paraguai comportaram-se como verdadeiros serviçais, em pânico por contrariarmos os interesses do grande irmão do norte.

Gerassi talvez lhes fosse útil para que compreendam o peso em potencial do Brasil na (re)definição da ordem internacional deste início de século.

Mas Gerassi não foi o único “brasilianista” a prever uma posição destacada do país no cenário internacional. Poderíamos encontrar ecos das teses de Gerassi em diversos analistas de política internacional nos dias de hoje e até mesmo em algumas vozes do mercado.

Para Martin Sorrel, por exemplo, o Brasil é a “marca mais charmosa a ser vendida ao redor do planeta”. Ele associa explicitamente o sucesso brasileiro no exterior ao desempenho do Presidente Lula. Sorrel é considerado por muitos o homem mais importante da publicidade mundial e preside o maior conglomerado de publicidade do planeta.

As críticas à política externa do atual governo partem de um conjunto de “especialistas” que, sistematicamente, reservam ouvidos moucos a inúmeras análises elogiosas feitas por intelectuais absolutamente insuspeitos mundo afora. É o caso das teses defendidas recentemente por ninguém menos do que Richard Haass, ex-diretor de Planejamento Político do Departamento de Estado dos EUA. Ao refletir sobre o papel dos emergentes na nova ordem global, Haass alerta para o fato de que “o que torna um país grande não é o tamanho de seu território, de sua população, de seu Exército ou de sua economia, mas a maneira como ele usa seu poder para moldar o mundo além de suas fronteiras”. Nesta perspectiva, a ação brasileira no Irã não é insensata ou pretensiosa, mas estratégica.

Ao ler as palavras de Gerassi reproduzidas no início deste artigo soa tentador lançar mão de um surrado lugar-comum e caracterizá-las como “proféticas”. Prefiro acreditar que Gerassi apenas olhou para a América Latina e para o Brasil despido de preconceitos e superstições. Refletiu sobre seu futuro com acuidade. E com a serenidade de um grande estrategista antecipou tendências e projetou cenários. Sem servilismo ou mistificações.

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2 Comentários

  1. Maravilha!Finalmente alguem defende o pais alem de mim.
    Brasil!Acima de Tudo!

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