Merkel e o veneno europeu

por Luciano Mendonça |

As crises fiscais observadas nos países europeus, resultantes de uma Europa em depressão, com investidores privados não mais se dispondo a emprestar a vários países, têm tido como resultado tentativas desesperadas e insanas de cortar gastos por parte dos governos, que mostram, como consequência, elevados índices de desemprego na periferia europeia. Esse quadro está arrastando o velho continente a uma depressão inequívoca.

A Alemanha, motor da economia européia, está na linha de frente na defesa da ideia de que a saída para a Europa envolve um compromisso irrestrito com a austeridade fiscal por parte dos governos. O próprio país seria exemplo dos resultados positivos dessa política para as economias.

De fato, a nação germânica descolou-se do resto da Europa, numa virada que teve início no final da década de 1990. Hoje, o orçamento do país está equilibrado, a sua dívida pública está caindo, os juros dos títulos de longo prazo são os mais baixos do continente, apresentando uma taxa de desemprego de pouco menos de 5,5%, o que é menos da metade da média dos países da União Européia (UE). Como se não bastasse, o desemprego entre os jovens do país, uma questão dramática para os demais da UE é um dos menores dos últimos 20 anos, cerca de 8%.

Os bons números apresentados pela economia alemã seriam resultado, principalmente, de um conjunto de amplas reformas trabalhistas, regulatórias e fiscais implementadas pelo governo Schroeder, em 2003. Todavia, como mostra o economista americano Paul Krugman, a mais importante política de governo da virada alemã foi a que permitiu a sua saída de uma situação de déficit para a de superávit comercial. Aqui o ponto fulcral: essa conquista, de caráter fundamental para a retomada da economia alemã, só alcançou êxito porque outros países, principalmente os do sul da Europa, afundaram-se em déficits comerciais, em valores correspondentes aos do superávit alemão.

Assim sendo, como o motor da UE, maior credora da Zona do Euro, vai manter o superávit comercial essencial à sua saúde econômica se os seus principais “clientes” decidiram não gastar mais? Quem consumirá os produtos made in Germany?  O próprio mercado interno? Provavelmente não, já que com uma cultura de poupança e com uma sociedade em rápido envelhecimento, o país economiza mais do que gasta.

Ou seja, estimulando a adoção de políticas contracionistas por parte dos países parceiros na Zona do Euro, as mesmas que ela tem implementado desde o início dos anos 1990, a Alemanha de Merkel desconsidera a máxima keynesiana que diz que suas despesas são a minha receita e a sua receita são as minhas despesas. Desconhecendo este fato, Ângela Merkel estimula e implementa políticas de corte de custo que joga a Europa numa situação de depressão sem fim, revelando-se o remédio uma verdadeira cicuta européia.

Para haver riqueza econômica a moeda precisa circular. O problema da Europa, e também da economia dos países centrais, é que consumidores endividados resolveram diminuir gastos, com credores optando por liquidez, criando, assim, uma crise de demanda. Mas economia européia, assim como a economia global, continua tão poderosa quanto antes, uma vez que a sua capacidade produtiva nunca foi comprometida. A fonte da depressão econômica é basicamente um problema técnico, um problema de organização e coordenação, como diz Krugman. Resolva-se esse problema técnico e a economia rugirá de volta à vida.

Tratando-se de uma questão técnica, a crise em questão, como afirmam os keynesianos, não é de difícil resolução, bastando os tomadores de decisão agir com clareza intelectual e vontade política para engendrar uma recuperação rápida e vigorosa, que passa por considerar que “a hora de austeridade é a bonança, não a recessão”. O problema da Europa é que o remédio que Merkel, através do Banco central Europeu (BCE), tem ministrado no intuito de salvá-la está matando o paciente, porque está errado, e a doutora e a sua equipe não mudam a receita porque não podem aceitar a ideia de que seu remédio não é infalível. Assim, o governo alemão está matando o corpo do qual faz parte, o que motivará a sua morte também.

A política econômica, o tratamento, que a Europa precisa neste momento é o mesmo que o Brasil já vem aplicando, a saber, a elevação dos gastos públicos. Não desconsiderando os problemas causados pela dívida pública, a maior necessidade dos governos europeus, hoje, é acelerar os seus gastos como forma de tirar a região da depressão econômica em que vive; uma vez que isso resolveria, como mostram diversos economistas, o problema da crise de demanda, que paralisa aos poucos o seu sistema econômico e que, na sequência, levará ao colapso o seu sistema social.

Diferente do que se possa imaginar, dívida não deixa a sociedade mais pobre, pois, como foi dito, o passivo de um é o ativo do outro, de modo que a dívida total não é afetada pela dívida em aberto. Os gastos públicos tiraram a Europa da depressão no pós-guerra, e nada impede que tirem agora novamente.

Em seu congresso anual, realizado em setembro, os trabalhistas britânicos, através de seu líder, Ed Miliband, apresentaram o programa de governo com que pretendem disputar a as eleições legislativas no próximo ano. Nele percebe-se claramente uma política de recuperação econômica por meio de estímulo da demanda passando pelo aumento dos gastos públicos. Caso vençam, e apliquem o programa, a Grã-Bretanha pode ser o primeiro país a abandonar o corte de gastos como remédio que, enquanto tratamento, vem matando os países europeus.

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