Leitura e cultura digital | Jéferson Assumção

Que a cultura digital e a ação cidadã em rede têm revolucionado a maneira como se participa da vida pública, do mercado e da política em geral, não é mais novidade para praticamente ninguém neste já bem entrado século XXI. Observamos como elas são potentes instrumentos para se diminuir a distância entre Estado e sociedade e como colocam governos, empresários e políticos mais próximos do que pensam e vivem os cidadãos da imensa, multifacetada e transnacional pólis contemporânea. Com a expansão da internet, mudanças enormes tem ocorrido na política, na cultura – às vezes, de maneira bastante violenta como no Egito, Libia e Tunisia, ou apenas como uma silenciosa transformação dos costumes – e ocorrerão, se já não estão em pleno curso, nas nossas bibliotecas públicas e, talvez, em nossa prática leitora.

Uma importante questão, em nosso entender, não é apenas saber como as ferramentas de comunicação tem ajudado a estabelecer uma era da informação, mas como essas mudanças tecnológicas têm feito a sociedade atual mais informal. E a informalidade sempre foi a manifestação das subjetividades. O jeito de alguém, um comportamento “inadequado”, um gesto não convencional sempre foram expressão daquilo que se convencionou como formas-padrão de se viver. As formalidades, no entanto, nas roupas, nos cumprimentos, no uso da língua, travam uma luta contra essas formas orgânicas e subjetivas.

A formalidade, a manifestação da objetividade, racional, de valores etc se estabelece em espaços formais de educação, de comunicação, de indústria cutural, e espaços que hoje em dia têm abalada a centralidade do monopólio que exerciam e que já não tem mais a mesma força de antes para vertebrar a sociedade a partir de seus valores acumulados por séculos e séculos. Será que esta faceta da vida contemporânea não afeta também a biblioteca de nossos dias?

Pois bem, com cada vez mais tecnologia à disposição e a possibilidade de as pessoas se conectarem entre si, o espaço para a subjetividade tornou-se gigantesco. E com ele cresceu a importância da subjetividade e da informalidade na sociedade contemporânea. Governos abertos estão buscando menos formalidade e mais horizontalidade na relação com os cidadãos, publicidades surgem com até pouco tempo inaceitaveis palavrões, apresentadores de telejornal usam gírias, camelôs 2.0 aparecem na web, junto com aeconomia solidária e ea conomia colaborativa/economia do comum etc, a universidade livre, a mídia livre.

No Brasil, e provavelmente em outros países, a formalidade na política, na comunicação, na educação, no mercado, está sendo bastante impactada desde a expansão da internet e abrindo espaço para uma maneira cada vez mais informal de se viver. Provavelmente, esta informalidade impactará cada vez mais, daqui para a frente, o mundo da cultura, da educação e a forma como nos relacionamos com equipamentos culturais tradicionais. Dentre todos os equipamentos culturais, as bibliotecas, são as que mais risco correm de ser vistas como as mais conservadoras, símbolo da guarda, do depósito de conhecimentos do passado, mais que do presente, quase nada do futuro. Mais formais que casas de cultura, centros culturais ou espaços culturais, em geral, muito atrásd a diversidade dos pontos de cultura e pontos de leitura. A atenção deve ser redobrada nesses espaços para que o indubitável valor que carregam possa ser apreciado, utilizado, valorizado na nossa sociedade de hoje. E parece que o caminho para tal é enxergar os benefícios da informalidade e articulá-los ao seu cotidiano valoroso. Fazer com que a leitura solidária das redes se articule com a leitura solitária dos livros pode ser um caminho.

Com a cultura de rede, colaborativa e digital, nosso tempo vê e age na emergência de novos sujeitos políticos, de novas formas e maneiras de se viver, assim como de novas soluções e um verdadeiro mundo de arranjos e alternativas oxigenadoras. É um tempo rico, em que o mundo industrial se modifica fortemente em suas bases e um outro pós-industrial aos poucos ganha status de realidade incontornável ao nosso redor. Por algum tempo, talvez não muito, conviveremos com as contradições desses dois paradigmas, opostos às vezes, em muitos pontos anuladores e em diversos outros de enorme riqueza de complementariedade. No caso em tela, a informalidade pós-moderna pode complementar, arejar a formalidade moderna, até que consigamos sínteses abertas, disjuntivas para nosso uso atual e futuro.

Claro que há perigos. Muitos. Inclusive o de a dose de informalidade ultrapassar a medida certa e transformar-se em hiperinformalidade, em ácido destruidor de acúmulos, de resultados de esforços coletivos a que toda a humanidade ajudou a construir. No mundo da leitura e da escrita, sem dúvida este embate entre o formal e o informal que o uso das novas tecnologias propicia nos traz pontos de atenção. De um lado, a riqueza das ruas, da oralidade, da diversidade, da espontaneidade. De outro, códigos importantíssimos para fixar o passado, para propiciar longos encadeamentos lógicos e possibilitar a comunicação de questões as mais profundas de nosso ser e existir. Exageros de qualquer lado podem ser prejuciais: o aparato racional não pode suplantar o vital. Nem o contrário. Nem racionalismo, nem vitalismo, alertava Ortega y Gasset há cerca de 100 anos, propugnando um Raciovitalismo equilibrado, de que, em meu entendimento não podemos prescindir hoje. Nem moderno, nem pós-moderno, mas ultrtamoderno, neomoderno, ou o que se queira denominar como hipermoderno, supermoderno, ubermoderno etc – neologismos para todos os gostos e modas.

Seja pelo uso das redes sociais, seja pelo acesso aos inúmeros blogs, sites e nuvens, cresce o número de pessoas que, por meio de ambientes pós-massivos, constróem uma nova esfera pública, ponto a ponto, pessoa a pessoa. Também trazem o vitalismo das culturas urbanas, suburbanas, rurais e populares valores e elementos que talvez fizessem falta ao mundo construído pela racionalidade.

E como se dá isso? Por que, em vez do que muitos pensavam, ou seja, que a internet apenas acentuaria o consumo e as garras do mercado, tanta gente vem utilizando essas ferramentas com autonomia (comum) em vez de apenas de forma heterônoma (massa)? Porque como explicam os militantes da cultura digital, junto ao usual download, em termos de cultura de rede e colaborativa, o mais importante é o upload. Mais que do que se consome, o fundamental em nossos tempos de “prossumidores” (consumidores-produtores) é o que se produz e se disponibiliza: ideias, arte, política.

Pelas possibilidades de se produzir ponto a ponto, de se consumir o que se produz na própria troca da cultura de rede, colaborativa e de se invisibilizar as culturas populares urbanas é que se deveria medir a riqueza desta cultura digital. Antes de sua vigência, a centralidade da indústria cultural e dos meios de comunicação impossibilita com que se entrasse em contato com a diversidade cultural de um país ou do mundo, sem que esta diversidade não houvesse sido formatada (formalizada) pela indústria cultural criadora de estereótipos e formalidades abstratas para rápido consumo.

No Brasil, as favelas, os sertões, a Amazônia, o Cerrado, o Pampa, vem fazendo uso da internet para dizer sua própria palavra, para fazer se ouvir a voz de comunidades e indivíduos que antes não existiam para o Mercado ou para o Estado. Contagiar-se com esta potencialidade do comum é fazer da biblioteca um lugar muito mais aberto para o diálogo da diversidade, para a cultura colaborativa, recombinatória e ampliadora de visões do mundo.

Estado, Mercado e Comum

Esta é, conforme Michel Bawens, da P2P Foundation, a tríade de instâncias sob a qual a vida em coletividade se desenvolve no mundo contemporâneo. Na sociedade pré-industrial, o Estado (e a religião) era praticamente o único legitimador da arte, da educação e dos usos. Na sociedade industrial, o Mercado junta-se ao Estado como grande legitimador em termos de educação, cultura e comunicação. E é na sociedade pós-industrial, que a legitimação de seguidores, curtidas, visualizações e compartilhamentos junta-se à primeira e à segunda como força legitimadora do “comum”. É esta instância do comum que vem emergindo dia após dia com as novas tecnologias. Ao fazer uso da internet e das ferramentas online para ampliação de seus repertórios e para dizer o que pensa do mundo à sua volta, além de gerar ação em rede, o comum ganha espaço como força mais importante e ativa que a categoria passiva de “massa”, referência da era industrial.

Vivemos num mundo ao mesmo tempo arcaico, pré-moderno, moderno, pós-moderno e ultramoderno. Às vezes em um único dia essas dimensões podem ser vividas na rua de qualquer cidade do planeta. Da mesma forma, habitamos um mundo ao mesmo tempo agrário, artesanal, industrial e pós-industrial, daí que já não podemos prescindir, em um mundo tão complexo, das ferramentas mais avançadas para compreendê-lo. A bibioteca, menos ainda. Não que se deva ignorar a realidade do mundo concreto, mas sim gerar um ambiente de mais participação do cidadão na vida pública a partir de novas potencialidades.

A presencialidade das grandes mobilizações, no Braisl, no Chile, na Espanha, no Norte da Áfrca etc, ao mesmo tempo que o uso das novas tecnologias, são traços da vida de nosso tempo. Talvez esteja nascendo daí uma nova ideia de democracia. Não uma democracia analógica, presencial e representativa, mas também não uma apenas digital. Uma síntese das duas: uma democracia digitalógica, talvez, nesse nosso tempo de neologismos tão profusos quanto passageiros (a propósito, alguém conhece palavras mais antiquadas que “informática” ou “cibernética”?). De qualquer maneira, nosso tempo e circunstância são estes e dentro deles apesar da equiprobabilidade do ambiente digital (em que os valores são todos os mesmos, basta clicar um site em vez de outro) a diferença necessária para dar conta deste novo mundo, mais que tudo, será de leitura. E de cultura digital.

Engana-se quem pensa que cultura digital seja o mero uso de sites, redes sociais, blogs ou microblogs. Ela é o modo como utilizamos essas ferramentas e ambientes na web, como a lemos. Se de forma utilitária e pragmática, para a simples repetição dos padrões de consumo e produção da era industrial, massificamo-nos da mesma forma com esses meios pós-massivos do que no ambiente massificador e massificado dos meios de comunicação e entretenimento de mercado.

Assim como podemos diferenciar uma leitura funcional de uma leitura cultural, ou seja heterônoma da autônoma, utilitária da estética, ensimesmada da ampliadora de repertórios, a cultura digital, ou seja, este que é o F5 da história da leitura, é o uso não-passivo, não-consumista, não-funcional dos meios digitais, mas autônomo, criativo, estético, ético e político. E aí existe uma contiguidade entre o mundo da leitura e o da cultura digital. Ler na tela de um tablet é apenas a maneira atual de ler, desde o ponto de vista da decodificação de símbolos e de interpretação de materiais de leitura em textos escritos ou não. A questão é, no mundo da leitura de textos escritos, como se lê: de maneira utilitária, consumista, funcional ou estética e cultural.

Assim como o livro impresso, a cultura digital é potencializadora da democracia real e com ainda mais ganhos, afinal a cultura colaborativa possibilitada pelas tecnologias serve para aprofundar e dar mais consistência à democracia institucionalizada, representativa. Ela promove o “diagonalismo”, ou seja, o encontro dos pontos positivos entre as estruturas verticais com as horizontais e o “digitalógico”, o do digital e analógico (movimentos, ações, presencialidades, para além da falsa dicotomia entre eles), o do papel e da tela. Vivemos a Era do E – era das conjunções, das convergências, das superações dos binarismos 1 ou 2 e das dicotomias digital x analógico, real x virtual. Do papel ou da tela. Encontrar diagonais férteis e inovadoras é um belo exercício de leitura sistêmica, complexa, em busca de novos pontos de vista para velhos e novos problemas da humanidade.

Em nosso entendimento, a biblioteca de hoje que, além de propiciar acesso aos livros e a outros suportes de leitura, deve promover o olhar curioso, criativo, aberto ao mundo, crítico, em vez do olhar ensimesmado promotor do tecnicismo, do formalismo, do pragmatismo, utilitarismo e a leitura funcional com respeito a fins, o conformismo e a a formação alienadora do mundo. E para isso a cultura digital e a leitura cultural no ambiente digital é campo de imensas potencialidades.

Quanto mais a bibioteca promover, não a mera inclusião digital, passiva e repetidora de padrões, mas a cultura digital, mais poderá se abrir para o comum, para a riqueza da cultura do comum, como espaço de encontros de sujeitos em vez de indivíduos vazios da massa passiva. A informalidade arejará a formalidade e a formalidade ajudará a potencializar e dar concretude às inspirações e criatividades da informalidad? Talvez. Há já inúmeros exemplos de práticas criativas nas bibliotecas brasileiras, vindas da riqueza da informalidade da cultura brasileira e sul-americana. Esta informalidade pode ajudar a promover mais que a leitura solitária (formal, funcional) a leitura solidária (informal, cultural) de que nos fala a professora Eliana Yunes, uma leitura modificadora, não apenas formatadora do sujeito.

“Leitura Digitalógica” é a leitura digital-analógica, com oralidade-escrita, vital-racional, talvez como queria Ortega y Gasset com outras palavras em seu Misión del Bibliotecário ou Misión de La Universidad, em que denunciam um esvaziamento vital da biblioteca e da universidade e a necessidade de religarmos os saberes. Para religar os saberes, a informalidade e a vitalidade precisam ser elementso a mais de como somos, fazemos, vivemos, e não apenas como elementos negativos que precisam ser cimentados por uma ilustração abstrata, funcional e utilitária. Para isso, as bibliotecas devem aprender com os usos progressistas que coletivos e redes de jovens fazem da internet. Devem aproveitar a potencialidade do comum e constantemente alimentar-se dessa energia com enorme potencial de desmassificação, mas que ainda não utilizamos a pleno. Estamos apenas começando.

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