“Frances Ha”, Geração Precarizada

Por Cloves Geraldo, publicado originalmente no portal Vermelho

Filmes costumam captar o sentido de uma época e traçar os impasses de uma geração. Michelangelo Antonioni (1912/2007) o fez com seu “Blow Up – Depois Daquele Beijo” (1966), em plena efervescência do movimento hippie. Era a época das aparências, do imaginado em meio às mudanças aceleradas. O registrado nem sempre correspondia ao real. O fotografo ao flagrar o crime, a trupe a jogar uma partida de tênis imaginária, os jovens a se agitar numa festa psicodélica. Enquanto isso o mundo real explodia em meio à Guerra do Vietnã (1963/1975).

Já o estadunidense Richard Lester sincronizou rock e corridas loucas de jovens em meio à agitação dos anos 60. Em “A Bossa da Conquista” (1965), Palma de Ouro em Cannes, daquele ano, traduziu outra vertente: o do viver tudo ao mesmo tempo, pouco importando o que ocorresse lá fora. Era o Poder Jovem. A mutação acelerada, no entanto, girava em outros sentidos: Lutas pelas liberdades civis (mulheres, negros, gays), contra as ditaduras apoiadas pelos EUA no Terceiro Mundo (Ásia, África, América Latina) e na Europa (Grécia, Espanha, Portugal) e contra a Guerra do Vietnã. Desta agitação emergiu o delírio neoliberal de limitar o papel do Estado, pós-Queda da URSS.

Sem referir-se ao impasse dele advindo, já tratado no contundente “Trabalho Interno” (2010) pelo também estadunidense Charles Ferguson, mas mostrando indiretamente suas consequências, o cineasta independente Noah Baumbach sintetiza os impasses da geração nascida no entreato neoliberal, cujos sonhos foram estilhaçados pela crise financeira de 2008. Seu “Frances Há” é o espelho de uma juventude obrigada a se equilibrar entre anseios, trabalho precarizado, favores de amigos e relações amorosas fugidias, sem grandes expectativas e nenhum horizonte de glórias.

“Sonho americano esboroa no filme”

Seu filme, além disso, é sobre o esboroar do “sonho americano”, pois nada lhe oferece, senão a incerteza e as frustrações cotidianas. Frances Há (Gerta Gerwig), o personagem título, é uma jovem que veio para Nova York, após se formar em dança e sonhar em trabalhar numa grande companhia. O que consegue é dar aulas numa escola para adolescentes. É uma ocupação que lhe permite, no máximo, dividir as contas com a amiga Sophie (Mickey Sunner), funcionária de uma grande editora. Enquanto não surge a ascensão, ela toca a vida, energizada, cheia de otimismo, longe das drogas. Sim, é possível.

É uma existência de altos e baixos, iguais às dos amigos feitos por ela ao longo dos entrechos, num ritmo alucinado, ditado mais pela agitação dela, Frances Há, pois o tédio, a solidão e a falta de perspectiva predominam. Este ritmo, acentuado pela música, a montagem e seus movimentos de dança tornam o filme alucinante. Em dado instante mergulha na ebulição de “A Bossa da Conquista”. Principalmente nas sequências de suas correrias pelas ruas novaiorquinas. E traduz o interior de Frances Ha, sua maneira de afastar as preocupações, as frustrações, os impasses seguidos vividos por ela. Não se submete a uma vida descolorida, vale-se de sua força interior para sobreviver.

Greta Gerwig, corroteirista de Baumbach, passa para o espectador os estados psicológicos da personagem cheia nuances por ela interpretado, sem histrionismo. Frances Ha disfarça insegurança, percalços sofridos, carências, indo em frente, sem cair na prostração, entregar-se à derrisão ou à depressão. Em contínua fantasia, ludibriando aos amigos e a si própria, ela segue em frente. Aceita empregos precários: distribuidora de panfletos em porta de lojas, auxiliar de cozinha, acompanhante de madame em festas e divide apartamento com dois jovens desconhecidos, candidatos a ator Lev (Adam Driver) e a roteirista Benny. E nem dinheiro tem para o aluguel e uma boa refeição.

“Juventude sem perspectiva”

Gerwig e Baumbach escancaram a falta de perspectiva da juventude no país que engendrou a máxima da “eterna juventude”. Todo o marketing do consumismo visa sustentá-la. Frances Ha, embora jovem, não tem sonho de consumo – ela só consegue sobreviver, assim como seus amigos. E mesmo quando faz o que muitos almejam: passar as férias em Paris – nada lhe ocorre de bom, senão a solidão, pois, além de lhe faltar dinheiro, sua cabeça está em outro lugar. Como conseguir um emprego digno. Em 08/05/2013, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), 16,3% dos jovens de 15 a 24 anos dos EUA estavam desempregados. O horizonte de Frances é cinzento.

A dupla Gerwig/ Baumbach capta, assim, o perfil de uma geração, vítima da armação neoliberal que julgava ter a solução para as cíclicas crises do capitalismo. O mesmo havia feito o também independente Benh Zeitlin, em seu “Adorável Sonhadora” (2012). Neste são os lumpens a viver no mangue, comendo peixes e caranguejos retirados da lama pútrida, nas cercanias de indústrias poluidoras. Ao lado eles estão os proletários igualmente penalizados. A juventude tem muito contra o que lutar. Motivos não lhe faltam.

 “Frances Há” (“Frances Há”). Drama. EUA. 2012. 86 minutos. Música: George Drakoulias. Fotografia: Sam Levy. Roteiro: Noah Baumbach/Greta Gerwig. Direção: Noah Baumbach. Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sunner, Adam Driver.

* Cloves Geraldo é jornalista e cineasta, dirigiu os documentários “TerraMãe”, “O Mestre do Cidadão” e “Paulão, lider popular”. Escreveu novelas infantis,  “Os Grilos” e “Também os Galos não Cantam”.

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