ESPECIAL CHINA: Um passo firme adiante | Vinícius Wu

Leia os artigos anteriores da série Especial China: A Revolução Bloqueada, de Tarso Genro, e Política e Ideologia na China Contemporânea, de Vinícius Wu

O alcance e a profundidade das novas diretrizes econômicas do Partido Comunista Chinês (PCCh) suscitam uma série de questões centrais para o futuro da economia global, ainda insuficientemente debatidas no Brasil. O presente artigo levantará algumas impressões sobre o tema, recolhidas a partir de um conjunto de encontros com importantes dirigentes políticos e empresariais chineses, realizados durante a missão do Governo do Rio Grande do Sul na China.

Pelo que pudemos atestar as referidas diretrizes não apenas significam uma enorme inflexão na economia chinesa, como também já encontram-se em plena implantação. Tudo indica que a linha definida é pra valer. A China, portanto, deve mudar ainda mais nos próximos anos, na esteira das grandes transformações iniciadas sob a liderança de Deng Xiaoping.

O empenho do governo chinês em demonstrar unidade e coesão em torno das decisões do Partido indica a importância do processo em curso desde a ascensão de Xi Jinping ao comando do país. Todos os dirigentes de governo e empresários repetem os mesmos termos e as mesmas opiniões sobre os desafios da China nos próximos anos.

Embora estejamos diante de um sistema de partido único, a afirmação da unidade nacional em torno das novas diretrizes não é nada trivial. Afinal, parte importante do atual pacote de reformas já constava dos planos do partido há alguns anos. Mas as disputas entre as facções do PCCh e a frágil liderança de Hu Jintao – antecessor de Xi Jinping – adiaram as mudanças.

As maiores preocupações da elite política chinesa estão relacionadas ao gravíssimo problema ambiental, às crescentes disparidades sociais e à corrupção. E Todos parecem estar de acordo que não seria possível manter o padrão de crescimento das últimas décadas – com taxas de crescimento na casa dos dois dígitos.

Mas, ao mesmo tempo, parecem ter consciência de que a experiência chinesa de economia de mercado planificada, com recorte distributivista, tem na satisfação das necessidades de consumo da população um dos seus principais pilares de sustentação.

Prosperidade econômica, nacionalismo e acesso ao consumo são as bases da legitimação do Partido Comunista. Por isso, os dirigentes chineses sabem que é preciso mudar, mas sem abrir mão dos fundamentos da atual economia. Uma tarefa nada simples.

Para isso pretendem atacar simultaneamente seus problemas buscando: 1. reduzir a dependência da economia chinesa de fontes de energia altamente poluentes, em especial, o carvão; 2. Apostar no fortalecimento das empresas de alta tecnologia e do seu setor de serviços; 3. Ampliar o mercado interno e reduzir a dependência das exportações; 4. Promover a liberalização de novos setores, como o financeiro, criando, inclusive, novas modalidades de suas já conhecidas Zonas Especiais; 5. Punir com rigor e investigar dirigentes envolvidos em casos de corrupção.

Cada uma dessas medidas representam um movimento vigoroso e o impacto sobre a economia global será decisivo. Nunca é demais lembrar que, na China, Partido, governo e setor empresarial são estruturas absolutamente integradas. As empresas chinesas já estão operando ativamente segundo as novas diretrizes.

O Governo do Rio Grande acertou em se posicionar diante do novo cenário. A missão do estado ocorreu em um momento bastante oportuno. Os chineses valorizam relações intermediadas pelo Estado, há uma hierarquia clara na visao de mundo chinesa. Os empresários com os quais tivemos contato foram unânimes em apontar o Poder Público enquanto interlocutor basilar para prospecção de investimentos.

A China parece decidida a entrar em uma nova etapa de seu modelo de desenvolvimento. As estruturas do país já vivem uma transição profunda. O gigante se move e o mundo sentirá os efeitos de seus passos nas próximas décadas. Compreender seus movimentos será, cada vez mais, indispensável.

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