Entrevista exclusiva com Tarso Genro

Em entrevista exclusiva para o portal, o intelectual petista, ex-ministro da Justiça e atual governador do Rio Grande do Sul fala sobre o esvaziamento midiático da esfera pública, a captura dos Estados por parte do capital financeiro, crise europeia, modelos de desenvolvimento, pautas da extrema esquerda e os elementos necessários para uma “nova hegemonia” nas sociedades futuras.

Governador, o senhor tem destacado, em diversas falas públicas, que o seu Governo é um Governo de Partidos, que valoriza a Política. Mesmo em ano eleitoral e diante da crítica permanente que a maior parte da grande mídia promove contra a esfera da Política, este discurso será mantido?

Tarso Genro: Eu tenho uma perplexidade permanente sobre o quanto continua a ser degradada a esfera da política, não só no Brasil, como no mundo inteiro. É aceitável que as notícias, em geral, sejam trabalhadas nos jornais e nos “blogs” a partir da ideologia e das convicções políticas dos repórteres e editores. O estranho seria se as matérias fossem relatos meramente factuais, “sem sal”, uma espécie de relatórios aborrecidos sem qualquer paixão. Minha perplexidade é outra: costumeiramente as notícias escondem os fatos e se tornam opinião e ideologia, omitindo deliberadamente os interesses reais que estão presentes nos conflitos políticos, nas iniciativas dos governos e dos partidos.

Podes citar algum exemplo de opinião disfarçada de notícia?

Um exemplo flagrante disso foi a viagem da Presidenta a Davos, evento em que a Presidenta foi totalmente prestigiada e defendeu o nosso modelo de desenvolvimento. Não estou sequer discutindo se ele é o melhor ou não, para o país, mas evidentemente foi este o motivo da viagem da Presidenta, num momento de crise mundial, no qual as agências financeiras privadas semeiam desconfiança, não somente sobre o Brasil, mas sobre qualquer Estado que tome qualquer medida que contrarie seus interesses. Todos os países do mundo, de Cuba à Coreia, da Russia à França, precisam de investimentos “externos”, portanto, colocar a ida da Presidenta como se ela fosse lá para simplesmente “ficar de bem” com as agências de risco é fazer crônica de opinião disfarçada de notícia, que não é uma informação, mas é contrabando de uma tese de como o mundo deve funcionar.

E, na sua opinião, qual a origem desta forma de informar?

O que está na base desta maneira de informar é, na verdade, uma ideologia, que é dominante hoje em escala mundial, apesar da crise do sistema como um todo. Qual é esta ideologia? Ela reza o seguinte: só é possível sair de uma crise sucateando direitos sociais para salvar os Bancos que são credores de uma dívida pública, cujo maior montante é originário da especulação e do enfraquecimento da moeda dos países devedores. Quais são os “fatos” que comprovam a dominância desta ideologia, no plano da política e das relações internacionais?  Ora, o Banco Central Europeu, para se contrapor à crise Européia – por determinação óbvia da Alemanha – não está financiando as empresas nem os Estados, mediante um programa de recuperação econômico-industrial, como foi, por analogia, por exemplo, o Plano Marshall. Está refinanciando os Bancos privados, que aumentaram a ciranda especulativa e que não fornecem recursos nem para os Estados nem para as empresas públicas e privadas, pois estas não tem “garantias” para acessar aos financiamentos, porque estão endividadas. Isso impede a criação de consensos internos para os governos pactuarem com a sociedade saídas para a crise, já que os governos não têm recursos para cumprir compromissos derivados de qualquer acordo e as empresas não tem financiamento para renovar-se e produzir.

Então é mais uma estratégia do mercado especulativo para manter a tutela sobre decisões governamentais?  

Sim. As saídas para as crises, portanto, são retiradas da esfera da política e jogadas para os balanços e estatísticas, recomendações e indicativos das agências de risco. Isso é um símbolo da “naturalização” do capital financeiro, como agente organizador do Estado e da sociedade, como se ele fosse uma força sobre-humana e não tivéssemos nenhuma saída, por dentro da democracia política, que só se legitima através do contencioso democrático.  Todas as informações sobre a crise do Estado Social Europeu dão de barato, como preliminar, que os avanços no nível de vida dos trabalhadores e o sistema de proteção social europeu é que são responsáveis pela crise. Não o enriquecimento brutal e debochado de uma minoria de multimilionários, que sempre pegou a maior renda do desenvolvimento para a suas burras privadas, e continuam levando uma vida escandalosa em meio ao empobrecimento geral da sociedade, seja na Espanha como na Grécia, seja em Portugal como na Itália.

Qual a alternativa então? Romper e confrontar esse sistema, como sugere a extrema esquerda?  

As propostas da extrema esquerda seriam conseqüentes se elas tivessem possibilidades políticas de serem aplicadas, porque todas as propostas que não formam base social para sustentá-las nem criam um novo “bloco histórico” capaz de implementá-las, redundam em retrocesso e legitimação das saídas que fortalecem o conservadorismo e a reação política. De outra parte, acho que é equivocado a extrema esquerda pretender que qualquer Governo possa ter autonomia para aplicar medidas radicais para reverter o controle que o capital financeiro exerce sobre o Estado, sem um movimento de solidariedade internacional forte, entre países que possam comerciar, ajudar-se mutuamente e ir fortalecendo um circuito financeiro alternativo sob controle estatal, o que não é fácil nas circunstâncias atuais. Os Governos que fracassam nestas iniciativas, que não pensam no outro dia, no outro ano, no próximo decênio, posterior ao conflito com o capital financeiro, tendem a ceder espaços para a extrema direita fortalecer-se e para a centro-direita conservadora voltar com toda força. Pensemos no drama que vivem, hoje, nossos irmãos argentinos e venezuelanos. Até mesmo na Revolução Bolchevique, guardadas as devidas proporções, ocorreu isso. A “falha” da Revolução Alemã e a falta de expansão da revolução para os países capitalistas avançados isolou a URSS. Depois veio a Nep, depois veio a industrialização forçada, depois veio o stalinismo.

Mas como evitar a repetição de erros cometidos no passado?  

Por isso a questão democrática é essencial. Não é somente uma questão relacionada com as liberdades políticas e o respeito aos Direitos Humanos, que evidentemente são importantes. A questão é fundamentalmente produzir dentro da democracia, não só maiorias estabelecidas politicamente, mas uma nova civilidade democrática e solidária, a partir de um conceito de mudança em que as idéias libertárias, o sentimento de pertencimento à sociedade, a legitimidade da busca da igualdade social crie uma “nova hegemonia”, que antecipe, na sociedade atual, os novos valores de humanidade da sociedade futura. Isso se faz através de políticas públicas, de valores políticos, éticos, culturais, produzidos tanto nas esferas da cultura popular como na chamada “alta cultura”, nas academias, nas empresas, nos organismos da sociedade civil, na vida estatal e nos hábitos do povo. É uma luta, creio eu, de longo curso, mas é uma luta que é também capaz de incidir na vida das pessoas, agora e amanhã: uma “guerra de posição”, principalmente.

O problema é que este ponto de vista não tem trânsito na grande mídia. O fortalecimento do papel indutor do Estado geralmente é criticado. No seu governo isso acontece muito, não é verdade?  

Em grande medida sim. Vou dar um exemplo concreto, em relação à natureza dos programas de Governo, que sempre estão em jogo nas avaliações da imprensa, de todas as convicções ideológicas. No início de qualquer gestão que eu tenha por missão comandar ou coordenar, sempre digo aos meus assessores e Secretários: “quem não estiver disposto a se mover no território ou mesmo disposto a promover relações internacionais, sejam elas políticas, comerciais ou culturais, que vá se preparando para pedir as contas”.  Por que eu falo isso?  Porque o cruel distanciamento do Estado em relação à sociedade, nos dias de hoje, exige um esforço muito especial dos agentes públicos, sejam eles “cargos de confiança “ou funcionários do “quadro” de servidores, para uma aproximação com a comunidade, uma relação direta com a cidadania, em todo o território e em todas as faixas da sociedade, especialmente em relação aos mais pobres, excluídos, os que mais precisam de políticas públicas. Ao contrário da visão gerencial-tecnocrática dos “sabidões” do neoliberalismo, que governam sem “escuta”, o nosso Governo aplica um programa que exige essa mobilidade e essa disposição: governar através de uma relação direta com os destinatários do Governo. Não posso deixar de achar engraçado, por exemplo, quando os jornais ou comentaristas políticos ligeiros avaliam os gastos com “diárias”, “despesas de viagem” e outros itens dos gastos públicos, sem relacioná-los com o programa de Governo que está em curso. Eles dão “de barato”, sem qualquer avaliação transparente, que os Governos deveriam fazer exatamente aquilo que os seus editores gostariam que fosse feito, seja o “déficit zero”, seja o arrocho salarial sobre os servidores, seja a imobilidade em relação às políticas sociais.

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