Dois pesos…

A desqualificação do voto do pobre

por Maria Rita Kehl, no Estadão, via Vermelho, publicado em 2/10/2010

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Foto: Felipe Gesteira
A Bolsa-Família proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

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4 Comentários

  1. A desqualificação do voto ou dos legitimos anseios dos menos favorecidos é histórica e endemica na medida em que contrapoem a noção equivocada de soberania das classes. No trascorrer do processo eleitoral que antecedeu as eleições de primeiro turno para as diversas categorias politicas culminando com a da Presidência da Republica, a candidata do PT Dilma Rousseff sofreu a mais infame enxurrada de denuncias, injurias e difamações das mais escabrosas e criminosas da historia da República via internet. A candidata Dilma e por consequencia o PT, sabiamente não cometeram o favor aos seus detratores em responder a tais sandices. Empenhados no jogo politico de alto nivel, elucidativo e propositivo resguardaram o povo, o eleitor, de tamanha ignominia preocupando-se na demonstração das conquistas e do trabalho realizado. Entretanto, nós, os brasileiros, preocupados com os destinos da Nação não podemos ignorar tal fato e cobramos uma ação no sentido de coibir tais abusos que infestam o Pais via internet aos milhões diariamente em forma de correntes, cartas, slides em pps e outras ferramentas e que certamente alcançam de forma nociva aos menos avisados com prejuizos dos mais diversos matizes.
    Esperamos uma ação energica nesse sentido, pois ao repetir-se no segundo turno das eleições tão nefasta e desleal atitude, teremos, sem duvida alguma o abalroamento das nossas mais caras instituições como já declarei em comentário anterior.

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  2. A candidata Dilma Roussef do PT está sendo arrastada e puxada violentamente para um escabroso brete onde se desenham os terriveis horrores do aborto, da religião, das crenças, usos e costumes e direitos individuais do brasileiro desenhados sobre portentosa armadilha moral de duvidosa cepa hipócrita. Tal assunto não deve ser tratado com cinecuras e firulas sob pena de contabilizar perdas irreparaveis. Se não bastasse, perde valioso tempo com o propalada “onda Marina” que não tem força alguma a não ser a de quebrar antes da rebentação. Isso posto, urge que se observe a posição dos contrários e se crie um meme com escape ao principio. O PT tem de colocar logo a campanha na rua apoiada nas realizações e nos compromissos para com o povo que lhe deu 47 milhões de votos e que se juntarão àqueles que lhe darão muito mais. Se, seus opositores tivessem a certeza da eficácia da utilização de verbos e alianças de cupulas desprotegidas de bases já teriam então, resolvido a questão toda no primeiro turno. O engraçado disso tudo é que ainda estão andando sobre os calcanhares de tantos tiros nos próprios pés e tentam somente com articulações verbais aplicar um “migué” na Dilma e no PT. Ainda bem que desse mal o Lula não morre e já cansou de demonstrar.

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  3. A observação é pertinente,os argumentos são legítimos e há realmente uma tentativa de desqualificar os votos dos menos escolarizados e mais pobres. Todavia, não se pode negar que existe uma política externa preocupante e uma aproximação injustifícavel com alguns líderes que não valorizam as liberdades individuais e um silêncio conivente com narcotraficantes e uma dúvida sobre qual a relação com eles e seus interesses. Quanto absurda desigualdade social, tem sido minimizada. Porém, os números e o desempenho dos brasileiros quando comparado aos países desenvolvidos continuam pífios. Nunca se matou tantos pobres no Brasil quanto hoje em dia. Justamente num Governo que zela tanto pelos menos favorecidos, mas permite que os traficantes de armas e drogas circulem livremente espalhando a violência. Só cresceremos de fato com educação, industrialização (menos tributos) e combate ao crime organizado com instituições fortes para não precisarmos de bolsa de qualquer espécie. Fim ao Executismo, o Legislativo e o Judiciário precisam de ter lideranças atuantes.

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  4. Para uma noção mais clara e abrangente das nossas políticas externas teriamos de considerar as políticas externas exercitadas por outros paises principalmente os mais ricos. Vistas de perto certamente perdem muito do seu charme seus encantos e começam então a surgir uma serie significativa de “inconvenientes”. De forma identica, guardadas as devidas proporções, qualifico as criticas a bolsa familia ou seja que bolsa for. Esquecem os críticos que os resultados das bolsas, sejam transformadas em cachaça, cigarro, feijão, arroz, linha ou corda ou mesmo colher de pau representam sempre um volume portentoso de recursos que ingressam no mercado e que fomentam o consumo e suas repercussões nas mais diversas áreas inclusive gerando impostos. Daí concluimos que a má vontade impele determinados individuos a terem lucros fabulosos com os miseraveis que recebem as referidas bolsas e depois se põem a criticar. Então o problema certamente não é com as bolsas e sim com o fato de se estar beneficiando alguem mas somente se este alguém for miseravel porque verbas para “cultura” e outras mumunhas da mesma espécie não merecem citações alguma. É um simples caso de má vontade….. talvez se algum dia forem distribuidos carros de luxo se mude de opinião.

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