De volta à realidade

Artigo de Vinícius Wu |

Depois do carnaval do final de semana passado, a grande mídia parece ter arrefecido seu interesse pela sucessão presidencial de 2014 e, curiosamente, a pesquisa Datafolha teve pouca repercussão se comparada à cobertura efusiva da aliança Campos-Marina, anunciada há uma semana. E não poderia ser diferente, afinal, a pesquisa Datafolha demonstrou o óbvio: a saída de Marina amplia a liderança de Dilma nas sondagens de intenção de voto.

Como havíamos registrado aqui, no Leitura Global, a grande novidade do último final de semana foi a saída da segunda colocada nas pesquisas e o Datafolha atesta essa afirmação em números. A superexposição de Eduardo Campos nas últimas semanas – somando as inserções do PSB na TV e a repercussão do acordo com Marina – o levou a uma importante ampliação, subindo à casa dos dois dígitos.

Porém, surpreende o elevado índice de rejeição (25%) para um candidato que ainda é pouco conhecido do eleitorado (43% afirmam não conhecê-lo). E como era previsível, Dilma herdou a maior parte dos votos de Marina (42%); Eduardo Campos ficou com 15%. Mas, chama a atenção a migração para Aécio de 21% dos votos da ex-Ministra do Meio-Ambiente de Lula. Há de se aguardar novas sondagens, mas este pode ser um indicador de que parte dos votos de Marina tem origem em um sentimento oposicionista que pode migrar com mais facilidade para o PSDB do que para o candidato socialista.

Outro dado importante a ser destacado também não é novidade para ninguém: o cenário eleitoral evoluiu em detrimento dos dois adversários com maior potencial inicial de votos, que eram Marina e Serra. Os dois são, à princípio, adversários mais difíceis para Dilma do que Campos e Aécio. O nível de conhecimento de Eduardo Campos indica que o Governador de Pernambuco (que lembremos: ainda tem responsabilidades a cumprir com seu estado) terá de ampliar sua presença no cenário nacional ou pode ver os 11 pontos conquistados desde a última pesquisa se esvair nos próximos meses ou mesmo estagnar.

Mas isso o tornará ainda mais dependente de estrutura partidária e tempo de TV, o que, por hora, não parece estar resolvido. Os desentendimentos públicos com Marina, que chegou a “expulsar” Ronaldo Caiado (DEM) da aliança “programática” com Campos, pode ser um problema para o Governador de Pernambuco. O episódio, por sinal, desencadeou uma forte reação dos ruralistas em defesa de Caiado e parece ter sepultado as pretensões de aproximação com o setor por parte de Campos.

Era a partir dessa relação que Campos pretendia superar algumas de suas principais fragilidades ao firmar palanques fortes no Centro-oeste e assegurar estrutura de campanha em regiões com forte presença do agronegócio. O pragmatismo de Campos, por hora, rendeu apenas adesões “heterodoxas” ao Partido neo-socialista, como foram os casos de Heráclito Fortes (PI) e Paulino Borhausen (SC), dois expoentes da direita mais reacionária do país cujos históricos falam por si.

A pesquisa Datafolha deve ser relativizada, pois foi realizada sem o distanciamento necessário para a consolidação de tendências. Mas pode-se concluir, preliminarmente, que Dilma não teve grandes prejuízos, ao menos por hora, e deve se esforçar para consolidar sua base de apoio, dificultando a vida de Eduardo Campos. Aécio, além de ver o Governador de Pernambuco se aproximar nas sondagens, ainda terá de conviver com o fantasma da volta do eterno candidato José Serra, que aparece como tucano mais bem posicionado nas pesquisas. E, também para o Senador mineiro, impedir qualquer ampliação da aliança de Campos será prioridade nos próximos meses. Fugir do emparedamento será o grande desafio de Campos e Marina. E não será nada fácil.

Compartilhe!

Deixe uma resposta