Cultura digital, um “tema de nuestro tiempo” | Jéferson Assumção

O Brasil vem passando por profundas alterações na área da cultura nos últimos 15 anos. A internet tem possibilitado cada vez mais ações descentralizadas e colaborativas, novos arranjos produtivos, distributivos e de circulação, para além da indústria cultural tradicional, altamente centralizada, homogeneizadora e estereotipada. Circuitos se formam e revelam um Brasil ao mesmo tempo tradicional e inovador, jovem, urbano, suburbano, rural, conectado e diverso, o que qualifica a ideia de cidadania, revela novas possibilidades estéticas e de uma economia do comum, além de dar visibilidade à mega diversidade cultural brasileira. Paralelo a isso há uma crescente articulação entre ativistas do mundo da comunicação, direitos humanos, mobilidade e outros, em que a cultura é um dos elementos centrais.

Em se tratando de cultura, portanto, vivemos um momento de inegável riqueza. As transformações tecnológicas potencializaram enormemente aquilo que é o âmago do desenvolvimento cultural, seja ele individual ou social: as trocas, os intercâmbios, as recombinações, as ampliações de repertórios. A tal ponto isso é importante para o mundo da cultura que poderíamos dizer, parafraseando o filósofo espanhol Ortega y Gasset em seu famoso livro El Tema de Nuestro Tiempo (1923), que o mundo digital (e a cultura em torno dele, de rede e colaborativa) é o tema de nosso tempo.

A cultura da internet tem reflexos na comunicação, nas artes, na educação, na cidadania, na economia e na vida política, entre outros campos. Com o digital, a cultura, antes quase que circunscrita a uma artificial e questionável lógica do sucesso, promovida pela indústria cultural, dos conglomerados de mídia e entretenimento, vem se autonomizando enormemente. Ao mesmo tempo, se desloca, nos últimos dez anos em nosso País, do supérfluo, distintivo e ostentatório, para um potente elemento de qualificação das ações e políticas sociais e econômicas. E isso porque, ao potencializar o indivíduo e os grupos em seus espaços privados e em sua autonomia, força uma enorme vitalidade para dentro dos espaços formais: o estado, a escola, os meios de comunicação, o mercado etc. Esta informalidade pode ter muitos aspectos negativos, mas também está plena de possibilidades. Elemento de centralidade da vida cultural do povo brasileiro, a informalidade encontrou, com a cultura digital, espaço para uma repercussão nunca vista ou ouvida antes, gerando admiração e vontade, ao mesmo tempo que medo e perplexidade. Daí se verem alguns (poucos) círculos de artistas instituídos em uma atitude entre preocupada e triste com a emergência de elementos de uma cultura pela qual muito da elite brasileira até hoje só teve vergonha.

Com os instrumentos tecnológicos à disposição, a cultura preenche-se da vitalidade de uma mega diversidade invisibilizada pelos meios tradicionais do mercado, seus estereótipos pré-fabricados e o fordismo da produção em série. O modelo industrial na área da cultura, hoje em crise, gera pouquíssimos fazedores de sucessos e uma imensa maioria de “fracassados”, como apontam ativistas culturais na internet. Aos poucos, vem se desenvolvendo, na tentativa e erro de produtores culturais independentes, um arranjo novo, de pequeníssimos sucessos, por um lado, mas de um menor número de atingidos pela “indústria do fracasso” por outro. Estes últimos, até os meados dos anos 90, eram, enfim, o maior resultado gerado pelas nossas condições tecnológicas e de mercado cultural. Os problemas da obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica hoje se infinitizam dentro de um contexto de obras de arte na época de sua infinita reprodutibilidade e da desmaterialização dos suportes.

A internet possibilitou saírmos de um longo período de quase exclusividade autocrática da indústria cultural e do entretenimento – vertical e homogeneizadora, em que o Estado e o Mercado instituíam e decretavam o verdadeiro, o bem e o belo – para um momento novo. Um momento que convive, claro, com os precedentes (vivemos num mundo ao mesmo tempo agrário, pré-industrial, industrial e pós-industrial), mas que se impõe a nós cada vez mais como circunstância. É uma era do E, de convergências, em que o digital amalgama o tradicional e a inovação, o campo e a cidade, o vital e o racional, a arte e a cultura, a técnica e a vida, o digital e o analógico.

Nesse nosso tempo, um mundo “digitalógico” se desenha a partir do uso das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Os contornos desta sociedade em rede, em termos políticos, sociais, econômicos e culturais já se alinhavam, mas ainda há muita indefinição, incompreensões, análises superficiais, preocupações além, é claro, do otimismo dos que percebem as potencialidades benéficas dessas mudanças. Por isso, as culturas das periferias e do interior do Brasil estão tão alvoroçadas. Invisibilizadas, marginalizadas, quase que confinadas ao consumo, ou ao download do que vem do centro, hoje, com a internet 2.0, elas fazem o upload, a expressão simbólica recombinada, ressignificada, para um mundo novo, P2P, ponto a ponto.

Com o objetivo de tratar ou pelo menos de levantar questões acerca deste e de alguns temas fundamentais do nosso tempo, o Conexões Globais, maior evento do tipo no Brasil, já em sua terceira edição, foi realizado nos dias 24 e 25 de janeiro, dentro do Fórum Social Temático. Destacaria algumas questões entre as diversas aportações do encontro presencial e analógico que lotou a Casa de Cultura Mario Quintana, nas redes, no teatro e na Travessa dos Cataventos. Nem apocalípticos, nem integrados, ou as duas coisas juntas, articulando o que há de positivo entre o horizontalismo e a verticalidade engessadora, seria possível um “diagonalismo” que conseguisse absorver o que há de avanço tanto da modernidade quanto da pós-modernidade? Que condições temos hoje de produzir sínteses, abertas, transformadoras, diminuidoras de injustiças, inclusivas e respeitosas com a dignidade que cada um é em si? Como usar a internet para ampliar a democracia real? Como ela pode ser fator de visibilidade das diferenças e das diversidades? Em que sentido desenvolver uma economia da cultura digital? De que maneira podemos utilizar os ambientes pós-massivos para gerar mais autonomia em vez da heteronomia desejada pelo mercado em busca de consumo de massa ou de homens-massa customizados?

Promover encontros de tantos olhares é fundamental para produzirmos juntos as respostas complexas que a complexa realidade contemporânea exige. E a cultura digital, ou seja, o uso cultural da internet, em vez de sua simples funcionalidade técnica esvaziada de razão crítica, tem ajudado na medida que conecta nossos pensamentos, desejos e ações e que dá condições para que a sociedade passe a ser menos massa (heterônoma, passiva) da indústria cultural e mais o comum (autônomo, ativo) do mundo possível pós-industrial.

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