BRIC’s e a nova ordem global

por Tarso Genro e Vinícius Wu

Brasil, Rússia, Índia e China se comprometeram com o aprofundamento da cooperação e da integração econômica entre os membros do bloco

A reunião dos BRIC’s – o grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China – realizada em Brasília, na semana passada, é o sintoma mais recente da falência da ordem global surgida ao final da guerra fria. Mais do que isso: ela simboliza a disposição destes países em lutar para inscrever nas instituições multilaterais, e em suas estruturas de composição e representação, a nova correlação de forças internacional que emerge do pós-crise. Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas a reunião da última semana é um passo histórico, importantíssimo, na direção de uma nova ordem internacional.

Os quatro países firmaram relevantes compromissos e sinalizaram claramente ao mundo desenvolvido que não aceitarão passivamente a permanência das atuais distorções – em termos de representação – nas instituições multilaterais como Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial. Cobram mais participação dos países emergentes, que são a ponta de lança da recuperação da economia global. Sub-representados nos organismos multilaterais, os BRIC’s se comprometem a atuar de forma conjunta em favor de um ordenamento mais equilibrado. A reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) foi uma das indicações mais importantes da reunião, que reforça o pleito brasileiro por um assento no Conselho de Segurança da ONU, ainda que o encontro não tenha aprovado nenhuma resolução de apoio ao Brasil.

Nesta segunda cúpula dos BRIC’s, os quatro países se comprometeram com o aprofundamento da cooperação e da integração econômica entre os membros do bloco. O documento final afirma, por diversas vezes, que o comércio global deve contar com mais de uma moeda de referência. Os ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais destes países se comprometem a planejar acordos comerciais que utilizem moedas locais. Esta é uma das principais propostas do encontro, que ainda deverá ser melhor desenvolvida.

Talvez o resultado mais animador tenha sido a proposta de aprofundarem a cooperação entre os Bancos de Desenvolvimento dos quatro países, com o objetivo de desenvolverem projetos de financiamento. Se implementada, significaria, na prática, a criação do mais potente Banco de Desenvolvimento do mundo. Uma espécie de BNDES dos BRIC’s. Mas esta é, por enquanto, apenas uma possibilidade.

A tímida repercussão das decisões do encontro na grande mídia talvez seja mesmo fruto de suas limitações, que devem ser reconhecidas. Entretanto, isto não retira do encontro sua importância.

A segunda cúpula dos BRIC’s reafirma as pretensões de seus membros em exercerem um papel mais influente nos assuntos mundiais. Isto só é possível pela força econômica destes países e pelo evidente esgotamento da atual ordem global, construída ao longo da segunda metade do século XX em torno de instituições multilaterais como a ONU, o FMI e o Banco Mundial. Uma formação na qual, obviamente, os BRIC’s não estão contemplados.

De reuniões como a da semana passada sairão os movimentos estratégicos deste grupo de países hoje apontados como os principais “players” da política global no novo século, ao lado de EUA, Japão e Alemanha. Seus desdobramentos devem ser objeto de atenção por parte de todos que lutam por um mundo mais equilibrado, seguro e justo.

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