Alguma coisa está fora da ordem

por Alberto L. Kopittke[i]

akopittke@yahoo.comwww.twitter.com/albertolk

Fonte da imagem: http://www.istoe.com.br/reportagens/75066_A+JOGADA+GLOBAL+DE+LULA+PARTE+1O acordo assinado pelo Presidente Lula com a Turquia e o Irã, na semana passada, tem relação com questões muito mais poderosas do que armas nucleares.

O poder político institucional do mundo ainda tem hoje o mesmo desenho de sessenta anos atrás. No entanto, num mundo globalizado não há mais espaço para o “unilateralismo” entre as cinco nações com poder de veto no Conselho de Segurança versus o resto do mundo.

Ainda no desenrolar da grande crise financeira global de 2009, é preciso que se questione qual o nível de eficiência da atual estrutura de poder das Nações Unidas para superar os grandes desafios do mundo, como a distribuição dos bens naturais, a miséria, as guerras e os extremismos religiosos e nacionalistas.

O Conselho de Segurança que serviu de esfera de regulação global durante a Guerra Fria, tem se mostrado ineficaz na nova correlação de forças mundial pós-queda do muro de Berlim.

Aliás, sempre é bom lembrar que os membros permanentes do Conselho de Segurança são (não por acaso) os maiores exportadores e produtores de armas do mundo (a China exporta pouco porque ainda está consumindo toda a sua produção).

O Acordo construído pela chancelarias brasileira e turca coloca por terra a tese da Guerra das Civilizações, a grande resposta conservadora proposta por Samuel Huntington[ii], contra a tese do fim da História de Fukoyama, e que tem sido o elemento central do discurso da direita americana e européia desde o ataque as torres gêmeas.

O acordo sinaliza que já não impera na política internacional a idéia de blocos de poder liderados pelas grandes potencias econômicas e bélicas, ou então inexoravelmente separado por diferenças religiosas ou culturais.

O acordo Brasil-Turquia-Irã é questionado publicamente por três motivos centrais: o primeiro seria o fato de que o Irã é um país que fere os Direitos Humanos, o segundo seria a falta de confiança para que o Irã cumpra o que foi acordado. E o terceiro seria o risco iminente de que o Brasil venha a sofrer sanções por divergir neste tema das nações mais poderosas.

No entanto, nenhum destes argumentos possui racionalidade. Em relação ao primeiro é difícil ver coerência quando se pensa que os EUA possuíram tribunais de exceção e autorizaram o uso da tortura para a produção de testemunhos até o ano passado. O segundo argumento desautorizaria todas as iniciativas de acordo com Israel, que descumpriu praticamente todos os acordos de paz nos últimos trinta anos. E o terceiro seria o mesmo que dizer que o nosso destino histórico é apenas “dizem amém”.

O mapa das principais civilizações, segundo Huntington*.

Nesse momento, em que o Brasil se posiciona no tabuleiro mundial de maneira ativa e soberana, devemos liderar de maneira cada vez mais incisiva a reestruturação das estruturas de poder da ONU, na defesa dos interesses dos povos de todo o mundo.

Para que a ONU volte a ter legitimidade, seus mecanismos de poder real devem ser legítimos. É no mínimo curiosa a contradição do discurso daqueles que justificam ocupações militares, mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança, em nome da democracia representativa, mas sequer aceitem debater o tema em nível global.

É preciso que a solidariedade vá além da mobilização da comunidade internacional em momentos de catástrofes. Precisamos de instituições globais para a regulação democrática e jurídica das megacorporações, poder efetivo de regulação sobre os fluxos de capital especulativo, sobre regras de propriedade de bens imateriais como o DNA e drogas medicinais e tenha eficácia em relação às regras de Direito Ambiental.

Os Objetivos do Milênio até podem ser uma importante ferramenta de publicidade, mas precisamos de instrumentos jurídicos efetivos para que se almeje a consolidação dos princípios da Carta das Nações Unidas[iii].

Do contrário, a ONU se tornará cada vez mais apenas um organismo internacional para chorar as tragédias da humanidade e não para evitá-las com força e eficiência.

Enquanto a ONU perde força, iniciativas privadas sem qualquer legitimidade democrática como o Fórum Econômico Mundial, a Comissão Tripartite e o Grupo de Bilderberg, se reúnem para ditar o futuro, produzindo catástrofes humanas de consequências muito maiores do que as naturais, como foi o caso do neoliberalismo.

As Nações Unidas são uma conquista de toda a humanidade, mas a sua estrutura interna de poder é hoje um limitador para que os seus objetivos fundadores se realizem de maneira plena e universal e a humanidade possa sonhar com um futuro melhor.

Nessa semana que se inicia o III Fórum da Aliança das Civilizações, no Rio de Janeiro, o povo brasileiro tem toda a legitimidade para reivindicar a construção de uma nova ordem mundial, porque está construindo uma nova ordem dentro do seu país, de maneira pacífica e democrática, mesmo contra interesses de várias ordens.

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[i] Advogado e atualmente Secretário Municipal de Segurança Pública e Cidadania de Canoas/RS.

[ii] Leia o famoso artigo de Samuel Huntington O Choque de Civilizações.

[iii] Leia a Carta das Nações Unidas.

*azul escuro: civilização cristã ocidental, azul claro: civilização cristã oriental, verde: mundo islâmico, vermelho escuro: Civilização Sínica, roxo: América latina, marrom: África subsaariana, laranja: civilização hindu, amarelo: civilização budista, cinza: antigas colônias britânicas, turquesa: Turquia, azul: Israel, marrom claro: Etiópia, verde claro: Haiti, vermelho: Japão

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1 Comentário

  1. Sempre suspeitei que haviam maiores interesses do que apenas a energia nuclear por trás deste imbróglio.
    Também tenho percebido alguma coisa fora de ordem no Conasp. Sentimos sua falta, Alberto, naquele colegiado.

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