A recuperação dos EUA e nós outros | Jaciara Itaim

Originalmente publicado em Carta Maior, no dia 06/02/2014

Uma das novidades mais importantes para a economia mundial, em destaque nesse início de ano, refere-se às mudanças observadas na política monetária desenvolvida pelo governo dos Estados Unidos. Apesar da alta relevância do tema e de seus impactos inescapáveis sobre o resto do mundo, o fenômeno acaba sendo pouco analisado ou explicado pelos órgãos da grande imprensa.

Os meios de comunicação em nossa terra quase chegam ao orgasmo em sua busca por descrever o processo norte-americano. No entanto, regozijam-se apenas com a utilização pretensiosa de expressões em inglês, na tentativa de mencionar aquilo que parecem não compreender. Não bastasse o uso exagerado do jargão indecifrável do economês, agora deram para buscar o original do dialeto do financismo na língua de “Wall Street Journal”, “Financial Times” ou “The Economist”. Pobre Shakespeare, se soubesse o que ainda promovem de abuso com teu idioma!

Permanece aquela tentativa constante de inviabilizar o acesso da maioria dos cidadãos “normais” à compreensão da dinâmica do mundo dos negócios e das finanças. Apenas os mais “iniciados” teriam o direito de dominar a lógica de funcionamento do sistema e tirar o proveito de tal capacidade. Todos os demais seríamos obrigados a nos submetermos a tal desigualdade e apenas nos conformarmos com a condição de meros observadores passivos dos ajustes operados “lá em cima”.

Economês em inglês: apenas para iniciados

Assim, abundam ultimamente nas editorias de economia passagens com termos pretensamente de uso banal e corrente, como “quantitative easing”, “tapering” e “vacuum cleaner”. Ora, trata-se tão somente de um subterfúgio elitista, que apenas contribui para afastar o leitor não familiarizado com o acompanhamento da evolução da conjuntura econômica norte-americana. Não seria nada complicado tornar os termos mais acessíveis. Vejamos:

a) “quantitative easing”: aumento da introdução de moeda no mercado, patrocinado pelo Banco Central, para evitar recessão e queda na atividade econômica.

b) “tapering”: termo em inglês que pode ser usado como redução ou afunilamento.

c) “vacuum cleaner”: nada mais, nada menos, do que o utensílio doméstico a que chamamos de aspirador de pó.

A profundidade da crise que se iniciou em 2008 colocou as autoridades públicas norte-americanas frente a um conjunto de grandes desafios. O primeiro aspecto dizia respeito à necessidade de romper com as premissas básicas do modelo neoliberal até então vigente. Isso significava superar um dogma da ortodoxia e reconhecer a incapacidade do mercado por si só encontrar as saídas econômicas para os desequilíbrios. O Estado passou a ser acionado, ainda que para prestar socorro e assistência preferencialmente para os grandes conglomerados empresariais.

O segundo aspecto referia-se à urgência em redefinir os mecanismos de “liberdade de ação” no sistema financeiro, sobre os quais não havia regulação nem fiscalização por parte das autoridades monetárias, a exemplo do FED (da sigla “Federal Reserve”, banco central daquele país). Em razão dessa ausência de controle, o sistema caminhava rapidamente para o quadro de um verdadeiro “vale-tudo”. Os exemplos são inúmeros: i) as agências de risco não classificavam os bancos em véspera de falência como instituições fragilizadas; ii) as empresas de seguro não eram monitoradas em sua estratégia de terceirização e repasse dos riscos envolvidos nas operações de crédito duvidosas; iii) a contabilidade dos chamados “bancos sombra” não tornava transparente a debilidade das condições de solvência do conjunto do sistema financeiro; entre tantos outros.

O terceiro aspecto se vincula à necessidade de reorientação da política econômica. Firmou-se a convicção de que a solução deveria passar por uma ação mais incisiva do governo para minimizar os efeitos da recessão que não demoraria para se apresentar. A realidade da economia não suportaria mais aquele descolamento completo entre as condições idealizadas da esfera financeira e a condição cruel do mundo da vida concreta e objetiva das pessoas e das empresas. No fundo, tratava-se de reconhecer a irresponsabilidade da aventura em que havia se metido o país mais rico do mundo. Tal trajetória voluntarista era fruto da ilusão criada em torno da fantasia de natureza meramente especulativa e financeira, sem nenhum respaldo da economia real.

A recuperação paulatina da economia nos EUA

A quebradeira generalizada de empresas e as dificuldades crescentes que passaram a atingir as famílias constituíram a base para a redução do ritmo de atividade. Desemprego e recessão passaram a ser o principal binômio a caracterizar as agruras da sociedade norte-americana. A crise teve início no verdadeiro castelo de cartas em que estava assentado o sistema de crédito de hipotecas das residências e demais segmentos do ramo de imóveis. Como os diferentes tipos de instituições financeiras estavam umbilicalmente ligados, houve o chamado “contágio”. O desemprego reduziu ainda mais a rendas das famílias, que não conseguiam cumprir as cláusulas dos contratos de financiamento. As empresas não recebiam seus haveres e todo o ciclo se contaminava.

As perspectivas de recuperação passavam por uma redução da taxa de juros geral da economia, a partir da taxa oficial do FED. Ela se aproximou de zero e chegou a ficar negativa. E mesmo assim era insuficiente para restabelecer o ânimo e a credibilidade entre os chamados “agentes econômicos”. Nesses casos, os manuais recomendam que a autoridade facilite ao acesso aos recursos monetários ainda mais, de forma a estimular a retomada do investimento e da produção. São leilões especiais de oferta de moeda ao setor privado, o chamado “quantitative easing”.

Ocorre que esses recursos nem sempre iam para os setores que o governo pretendia incentivar. Dada a condição generalizada da globalização financeira, os acréscimos de oferta monetária do governo norte-americano vinham se somar ao movimento do capital especulativo em busca de maior rentabilidade pelo mundo afora. E a política monetária adotada pelo Brasil – campeão mundial de taxa de juros – funcionou como um imã permanente de atração dessa massa de dinheiro internacional.

À medida que os primeiros sinais de recuperação da atividade econômica se fizeram notar nos EUA, o FED passou a sinalizar com o chamado “tapering”. Ou seja, avisou de forma objetiva que aquela fase de expansão de dinheiro fácil estaria entrando em uma fase de afunilamento, de redução paulatina. Os volumes dessa oferta especial seriam diminuídos pouco a pouco, em uma clara demonstração de que isso seria combinado a uma recuperação da taxa de juros naquele país. Isso significaria uma perigosa reviravolta no movimento observado na maioria dos países do mundo em desenvolvimento até então. Isso porque, a exemplo do ocorrido no Brasil, essas economias sofreram um processo de valorização de suas respectivas moedas nacionais, em razão do enorme volume de recursos circulando pelo mundo.

E assim chegamos ao terceiro termo, o “vacuum cleaner”. A analogia ao efeito do aspirador de pó se justifica pela violência com que a melhoria da atratividade dos juros no mercado norte-americano certamente tenderá a provocar nas finanças planetárias. Haverá uma espécie de sucção dos recursos espalhados pelos países mais frágeis, retornando às praças financeiras de origem. E o primeiro efeito será uma inevitável tendência de desvalorização em suas taxas de câmbio, mais ou menos na linha do que tem acontecido com o nosso real. Esses desequilíbrios nas transações financeiras internacionais não costumam se manifestar de forma indolor.

Ajuste por lá e desequilíbrio por aqui

As editorias de economia até já criaram um novo acrônimo – BIITS – para substituir o conhecido BRICS.  A novidade é chamada de “fragile five”, ou seja, os 5 países que mais sofreriam com esse quadro de turbulência nas finanças globais. Trata-se do conjunto formado por Brasil, Índia, Indonésia, Turquia e África do Sul, em razão da elevada sensibilidade de cada um no desarranjo do respectivo setor externo.

No caso brasileiro, na verdade, esse quadro só antecipa e escancara o dilema que os governos têm buscado evitar ao longo dos últimos anos. Ao optar pela manutenção do ajuste ortodoxo desde o Plano Real, nosso país serviu como pólo altamente atrativo para o capital especulativo, de natureza meramente financeira.

Combinada essa alternativa com uma liberdade absoluta nas movimentações dos capitais externos, vivemos há tempos uma tendência à sobrevalorização artificial de nossa taxa de câmbio. O resultado mais perverso foi o processo de desindustrialização, em razão da substituição do padrão de consumo por bens importados – em especial os de baixa qualidade originários da China. A produção industrial brasileira despenca a olhos vistos.

Houve uma enorme resistência – patrocinada pelos interesses vinculados ao financismo – em enfrentar essa irresponsabilidade perversa e insana. O Brasil continuou essa tendência a perder valor agregado no setor industrial e agora se encontra bastante fragilizado para uma recuperação necessária. Caso se confirme a recuperação norte-americana, os recursos continuarão a migrar de nossas praças e tal movimento pressionará pela desvalorização cambial. O governo teme os efeitos de crescimento dos preços, pois boa parte do consumo agora é influenciada por bens importados.

Assim, é bem capaz que seja criado um novo “consenso” – no interior do seleto grupo dos formadores de opinião da banca e dos especialistas em consultoria financeira  – em torno da necessidade de se aumentar ainda mais a taxa de juros oficial. O intuito é manter algum grau de atratividade de recursos externos e atenuar o choque da desvalorização do real. Ou seja, a maioria da sociedade pagará mais uma vez a fatura mais elevada pela omissão do governo em assumir o caminho do desenvolvimentismo e de um projeto nacional de inclusão e sustentabilidade.

* Jaciara Itaim é economista e militante por um mundo mais justo em termos sociais e econômicos.

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