5° Congresso do PT: uma oportunidade perdida | Vinícius Wu

O congresso do último final de semana foi mais uma oportunidade perdida pelo PT para avançar em termos de superação de seus impasses. Talvez, o partido não esteja em condições de perder mais tempo. Seu futuro está sendo decidido agora

Por Vinicius Wu

O Congresso do PT em Salvador termina sem que o partido – novamente – consiga apresentar à sociedade brasileira uma plataforma concreta de renovação de sua estratégia e de suas práticas, cada vez mais, identificadas com os piores traços da tradição política nacional.

Além disso, não parece ter sido objeto de debate no congresso temas como o diálogo com novos sujeitos sociais, as novas formas de articulação e mobilização política, a interessante renovação da esquerda espanhola ou mesmo a necessidade de imersão nas agendas da transparência, governo aberto e governança colaborativa, indispensáveis ao restabelecimento dos laços do partido com os jovens e os desacreditados na política tradicional.

Enfim, o congresso parece ter sido incapaz de apontar para uma nova agenda política, compatível com os desafios que se apresentam ao partido e com os níveis de exigência da sociedade em rede do século XXI. Tirando a incorporação de algumas proposições da minoria partidária (como a ideia de formar uma nova frente de esquerda) e o manifesto assinado por parlamentares insatisfeitos com os rumos apontados pela maioria, resta muito pouco para reanimar a militância após o terceiro congresso. Mais uma oportunidade perdida na recente história do partido.

Sem revisitar, profundamente, os temas da ética e do combate à corrupção e sem apresentar uma agenda efetiva de renovação da política, é pouco provável que o PT consiga restabelecer o diálogo com setores médios e com a juventude. A inércia e a falta de imaginação política arrisca o próprio futuro do PT. E, ao que tudo indica, seus dirigentes não estão plenamente conscientes disso.

Retorno ao Republicanismo

Não há indícios de que o PT tenha refletido em seu congresso a respeito daquela que é a pior de suas mazelas atualmente, qual seja, a identificação, por amplas parcelas da sociedade, do partido enquanto agrupamento político mais ligado à corrupção no país. Não basta apontar a responsabilidade da mídia no acobertamento da corrupção “dos outros” – o que é verdadeiro, mas totalmente insuficiente.

O PT precisa se reinventar, refazer suas práticas, radicalizar em termos de transparência e enfrentamento à corrupção, dentro e fora do partido. Sem isso, corre o risco de ser atirado, definitivamente, à vala comum da política tradicional, incapaz de retomar sua condição de partido portador de um projeto de transformação da sociedade brasileira.

O encontro do projeto histórico do socialismo petista com a tradição do republicanismo moderno permanece em aberto, um desafio ao partido que surgiu questionando as estruturas tradicionais de organização e representação, mas que, uma vez no poder, se viu reproduzindo boa parte dos elementos constitutivos de nossa cultura política patrimonialista.

O PT foi a grande novidade política no Brasil das últimas décadas do século XX. Inovou, deu voz aos excluídos, realizou os maiores experimentos de democracia participativa que se tem registro no país. No governo federal, realizou um programa de redução da pobreza sem precedentes. Mas, se quiser renovar-se enquanto instrumento de transformação das estruturas de poder no país, o PT deverá enfrentar a força centrípeta da tradição política nacional, profundamente marcada por nosso passado escravista, pela força do clientelismo, pela cultura patrimonialista e pela vocação elitista do próprio Estado brasileiro.

É preciso apoiar-se numa profunda ressignificação dos valores do republicanismo radical moderno, (re)inventando uma ética socialista transformadora, contemporânea e referenciada nas melhores experiências de ampliação da participação da sociedade na condução da res publica.

Sem força social e política para apresentar e aprovar uma verdadeira Reforma Política no Congresso Nacional, o PT deveria concentrar suas energias para reformar o Poder Executivo por dentro, através de medidas que, em grande parte, dependem da disposição política e do empenho de seus gestores posicionados em diferentes estruturas de gestão do Estado brasileiro.

O quinto Congresso do partido deveria apresentar à sociedade brasileira, uma agenda de abertura radical de dados e informações em todas as estruturas públicas dirigidas pelo partido; de aplicação plena da Lei de Acesso à Informação nas estatais; de revisão de procedimentos administrativos referentes às compras e aquisições no setor publico. Também poderia comprometer-se com a predominância de indicações técnicas nas empresas públicas e estatais; com a apresentação de projetos de lei visando à reformulação de normas que regem processos licitatórios.

O partido deveria se interessar pela agenda de governança colaborativa, reaproximar-se, verdadeiramente, dos debates sobre participação social. Devia, ainda, jogar luzes sobre seus próprios atos, sua estrutura de funcionamento; dar ampla publicidade ao uso do fundo partidário, prestar contas de suas finanças, convocar sua militância a participar, efetivamente, de suas decisões, através de plataformas digitais de colaboração e tomada de decisão. E, claro, deveria rever seu processo de eleições internas que, em muitas ocasiões, nos remete a práticas coronelistas, características da República Velha.

Novos sujeitos e novas formas de mobilização social e politica

O congresso do PT parece ter ignorado o rico processo vivido pela esquerda espanhola na atualidade, que através de uma nova conformação parece estar ressurgindo das mobilizações ocorridas desde o ano de 2011. O Podemos emerge enquanto força renovadora, que pode ocupar um lugar central na reorganização política da esquerda europeia nas próximas décadas.

O principal partido da esquerda brasileira precisa se debruçar sobre a nova composição de classes do país, retirando daí conclusões importantes a respeito da necessidade de renovação de seu programa e de suas formas de atuação política.

O PT não consegue acompanhar o processo de recomposição social que ele mesmo ajudou a instituir no país. Já não basta falar em reduzir a pobreza, é preciso ir além e oferecer novas possibilidades de realização plena da felicidade humana, afirmando novos direitos econômicos, sociais, políticos e culturais.

As profundas transformações na estrutura de classes e no tecido social brasileiro não foram devidamente absorvidas pela retórica e prática política petista, ainda fortemente vinculada à cultura sindical do século passado, que serviu de base à própria criação do PT.

Sobraram debates inócuos sobre a mudança da política econômica e não se ouviu nada, no congresso petista, a respeito da organização dos desempregados e sub-empregados, dos jovens precarizados das periferias brasileiras. Até hoje, o PT não foi capaz de realizar uma reflexão mais adensada sobre os protestos de junho de 2013 e segue sem entender o que, de fato, aconteceu. Segue falando pra dentro e quando dialoga pra fora, o faz com uma linguagem defasada, pouco nítida e, muitas vezes, conservadora.

Não há respostas e proposições para os temas da reforma urbana, da mobilidade, da segurança pública e da qualificação dos serviços públicos, que estiveram na base das mobilizações de 2013.

Ou seja, o PT encerra seu quinto Congresso sem que apresente as bases de sua necessária renovação; sem que reflita sobre a necessidade de superar sua maior crise a partir do reconhecimento pleno de suas maiores virtudes e, também, de suas grandes limitações.

Sua grande virtude foi colocar, pela primeira vez no país, os “de baixo” na condição de protagonistas de sua própria história. Suas limitações, em grande medida, se relacionam à sua incapacidade de interpretar, adequadamente, a força da cultura política brasileira que, desde sempre, soube domesticar e subordinar à sua lógica as pretensões reformistas que emergiram em diferentes contextos históricos no país.

O congresso do último final de semana foi mais uma oportunidade perdida pelo PT para avançar em termos de superação de seus impasses. Talvez, o partido não esteja em condições de perder mais tempo. Seu futuro está sendo decidido agora.

 

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Vinícius Wu, Historiador. 

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